Por que tantas crianças estão estressadas?

Cali Farmer, 4, (L) cries as she hugs her mother Netta Farmer at California Institute for Women state prison in Chino, California May 5, 2012. An annual Mother's Day event, Get On The Bus, brings children in California to visit their mothers in prison. Sixty percent of parents in state prison report being held over 100 miles (161 km) from their children. Picture taken May 5, 2012 REUTERS/Lucy Nicholson (UNITED STATES - Tags: CRIME LAW SOCIETY TPX IMAGES OF THE DAY) ATTENTION EDITORS PICTURE 23 28 FOR PACKAGE 'MO R'S BEHIND BARS'

Desenvolvimento Infantil/Socioemocional
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Por que tantas crianças estão estressadas?

Estresse não é exclusividade dos adultos – a diferença é que, na primeira infância (dos 0 aos 6 anos), ele pode causar danos permanentes ao desenvolvimento. Como o cérebro do bebê está mudando rapidamente, realizando muito mais conexões neuronais que um cérebro adulto, a criança atravessa um período vulnerável. Nessa etapa, experiências traumáticas têm grandes chances de gerar mudanças irreversíveis.

Como isso acontece?

A produção constante de hormônios do estresse afeta o sistema imunológico, reduzindo a resistência do organismo contra infecções e doenças contagiosas.

As áreas sócio-emocionais e de aprendizado também são afetadas, e a criança pode começar a apresentar comportamentos impulsivos (como bater em um colega ou reagir exageradamente a um problema), já que sua capacidade de regular emoções fica alterada.

Crianças estressadas podem ser confundidas com malcriadas ou "birrentas". É melhor prestar atenção no que desencadeia essas crises (foto: Google)

Crianças estressadas podem ser confundidas com malcriadas ou “birrentas”. É melhor prestar atenção no que desencadeia essas crises (foto: Google)

No longo prazo, esses meninos e meninas estressados se tornam adultos com respostas ruins ao estresse diário. O corpo passa a liberar hormônios do estresse (que preparam o organismo para lidar com um obstáculo, acelerando batimentos cardíacos, liberando adrenalina e deixando a pessoa em estado de alerta) muito cedo, em situações inofensivas, ou, ainda, permanecer em alerta por mais tempo do que o necessário.

Os sintomas do estresse infantil podem se manifestar tanto no físico quanto no psicológico da criança:

Sintomas físicos

• dor de barriga

• diarréia

• tique nervoso

• dor de cabeça

• náuseas

• hiperatividade

• enureses noturna

• gagueira

• tensão muscular

• ranger de dentes

• falta de apetite

• mãos frias e suadas

Sintomas psicológicos

• terror noturno

• introversão súbita

• medo ou choro excessivo

• agressividade

• impaciência

• pesadelos

• ansiedade

• dificuldades interpessoais

• desobediência

• insegurança

• hipersensibilidade

Contudo, um sintoma isolado não é garantia de que a criança esteja sofrendo estresse – ele deve servir apenas como aviso para familiares e educadores, que, a partir de então, precisam prestar atenção no comportamento dela em todos os ambientes que frequenta, verificando se outros sinais se manifestam. “Um dos grandes desafios é que os pais, os adultos presentes na vida dessa criança, estão muito ocupados para notas os estágios mais iniciais da mudança de comportamento”, a presidente da International Stress Management Association (ISMA-BR), Ana Maria Rossi, explicou à Revista Educar para Crescer. “Começam a notar quando já existe um problema, e não mais um indicador”.

Ficar atento às mudanças que ocorrem na vida dessa criança ajudam a identificar os momentos de estresse que ela pode estar enfrentando. As principais fontes de estresse na infância são:

Críticas e desaprovações constantes

Quando os adultos ao seu redor não equilibram críticas e reclamações com encorajamento e elogios, a criança se sente incapaz de atingir as expectativas e vive sob pressão. De acordo com uma pesquisa recente da ISMA, que analisou 220 crianças brasileiras entre 7 e 12 anos, essa é a causa de 63% dos casos de estresses infantil.

O ambiente familiar interfere na forma como a criança lida com estresse. Crianças muito criticadas ou que presenciam brigas e violência entre os pais podem ter problemas de desenvolvimento (foto: Google)

O ambiente familiar interfere na forma como a criança lida com estresse. Crianças muito criticadas ou que presenciam brigas e violência entre os pais podem ter problemas de desenvolvimento (foto: Google)

Atividades em excesso

Aulas de inglês, natação, balé, futebol, reforço escolar, piano, xadrez… Crianças sobrecarregadas não têm tempo para descansar e brincar, momentos essenciais no processo de aprendizagem.

Ainda que os pais acreditem estar preparando os filhos para um futuro profissional bem sucedido, atividades extracurriculares em demasia foram citadas por 56% das crianças entrevistadas durante a pesquisa.

Bullying

Atos de violência entre colegas foi apontado por 41% dos entrevistados como fator de estresse. Inclusive, os sintomas físicos listados acima podem surgir como uma fuga para a criança, que busca motivos para evitar seus agressores (faltando aula ou evitando outros ambientes sociais em que esteja sendo alvo de bullying).

Especialistas concordam que casos de bullying se intensificam no Ensino Fundamental e Médio, mas há sinais de alerta que podem ser observados desde a Educação Infantil.

Falta de rotina

Crianças exigem estabilidade para se desenvolver plenamente. Hora de dormir, de fazer as refeições e de tomar banho provém segurança. O mesmo ocorre em sala de aula: professores de creches e pré-escolas são instruídos a seguir rotinas (música na chegada, hora da história, recreio, escovação de dentes e assim por diante) que fazem com que os alunos se sintam confortáveis no ambiente escolar.

É comum que a própria turma cobre a organização do professor se, por acaso, ele inverter a ordem das atividades – isso porque não saber o que irá acontecer durante o dia é gatilho para o estresse.

Superproteção

Apoiar os pequenos em situações de estresse é positivo, mas tentar abolir qualquer evento levemente desafiador cria adultos incapazes de lidar com os próprios problemas. Fora de casa, a criança certamente será exposta a dificuldades e, então, não terá o amparo para enfrentá-las por conta própria.

Traumas e violência casos mais graves, como violência física e explosões de raiva, provocam sentimentos de medo, raiva e estresse. Situações traumáticas como a perda de um amigo ou membro da família também são desgastantes tanto para crianças quanto para gente grande.

A criança precisa de momentos de afeto que a ajudem a sair do momento de estresse: colo e abraços funcionam para acalmá-la (foto: Google)

A criança precisa de momentos de afeto que a ajudem a sair do momento de estresse: colo e abraços funcionam para acalmá-la (foto: Google)

O que fazer?

Não é possível eliminar do universo da criança todas as origens do estresse – e isso tampouco é indicado. Afinal, esse é um momento de aprendizado que irá moldá-la para a vida adulta. O que deve ser evitado é que um momento de estresse seja prolongado, criando efeitos permanentes no organismo.

Pais e professores têm um papel fundamental ao impedir que a reação ao estresse se perpetue. Eles são os “adultos apoiadores”, responsáveis por transmitir uma sensação de segurança e ajudá-la a enfrentar o problema. Manifestações de afeto, como colo, carinho e abraços, fazem parte desse trabalho e são chamados de apego seguro.

A criança que conta com esse sistema de apoio reage melhor ao estresse e é capaz de lidar com eventos difíceis por conta própria quando deixa sua casa. Além disso, desenvolve mais autoconfiança e habilidades de interação social – podendo criar suas próprias redes de suporte no futuro.

É importante que os adultos responsáveis saibam distinguir o estresse negativo do positivo, e compreendam quando sua interferência é necessária. O estresse positivo é uma fase de alerta inicial que ocorre quando a criança é apresentada a um desafio. Ela produz mais adrenalina, que lhe dá ânimo, energia e criatividade para resolver o problema. Esse é um momento altamente produtivo, em que ela sequer sente necessidade de descansar – mas, por isso mesmo, não deve se manter por muitas horas.

Quando a criança ultrapassa seus limites de adaptação, o estresse se tornou excessivo. Esse é o estresse negativo, que a deixa esgotada, desmotivada e prejudica seu desenvolvimento pessoal e escolar – justamente quando família e educadores devem intervir.

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