Infância acelerada: estimular bem não é estimular muito

Estimular bem não é estimular demais. Aulas e atividades extracurriculares em excesso criam crianças cansadas e estressadas (foto: UH Hospitals)

Desenvolvimento Infantil/Registros
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Infância acelerada: estimular bem não é estimular muito

Você já ouviu falar da importância dos estímulos na primeira infância (período do 0 aos 6 anos em que o cérebro da criança mais cresce, e quando ela desenvolve valores, personalidade, potencial de aprendizagem e tantas outras características que vão acompanhá-la até a vida adulta). Muitos pais, é claro, também conhecem essas pesquisas – o que leva muitos a entender que, apresentando seus filhos a experiências suficientes, eles serão mais espertos, mais talentosos, falarão mais idiomas e ganharão mais dinheiro, no futuro, do que seus coleguinhas da mesma idade.

Daí a tendência de matricular crianças em idade pré-escolar em uma lista de aulas extracurriculares, ocupando todos os dias da semana. É verdade, aprender um novo idioma é facílimo até os 7 anos de idade. Praticar esportes é um hábito que deve ser cultivado desde cedo para uma vida saudável. Mas, acima de tudo, elas precisam de tempo para brincar. Para não fazer nada. E para sentir tédio.

Estimular bem não é estimular demais. Aulas e atividades extracurriculares em excesso criam crianças cansadas e estressadas (foto: UH Hospitals)

Estimular bem não é estimular demais. Aulas e atividades extracurriculares em excesso criam crianças cansadas e estressadas (foto: UH Hospitals)

A sutileza que nem todos compreendem é que estimular adequadamente não é estimular mais que os outros; não é a quantidade de estímulos que influencia positivamente a infância. Muitas vezes, o próprio ambiente seguro, com espaço para descobertas e materiais a serem manuseados sem orientação dos adultos já se mostra um estímulo maravilhoso: incentiva a autonomia, a curiosidade, a tentativa e erro, a adaptação. Conversar com a criança, fazer perguntas sobre seu dia ou ler uma história antes de dormir são estímulos valiosos – mais do que aprender a escrever aos 3 anos para se exibir na reunião de pais.

É possível que um de seus alunos (ou de seus filhos) de fato esteja pronto para ler e escrever mais cedo – isso não significa que todas as outras crianças estejam atrasadas ou recebendo estímulos pobres. Estimular corretamente tem a ver justamente com reconhecer as facilidades e os potenciais de cada criança e ajudá-las a chegar lá em seu próprio ritmo, sem competições.

O excesso de compromissos, aulas e estímulos já se comprovou prejudicial ao desenvolvimento infantil. Tentar encaixar as crianças em um ritmo frenético, que nem mesmo é saudável para os adultos, traz consequências para o desenvolvimento cognitivo, emocional e biológico.

Não tenho nada para fazer

Ótimo! É desses momentos não planejados, sem obrigações, que surgem ideias criativas e originais. O tédio não é um monstro terrível que deve ser evitado – ele é fonte de inspiração. Pesquisas já mostraram que famílias superprotetoras ou que vivem com horários apertados costumam ter crianças mais apáticas. Isso porque elas estão tão acostumadas a ter cada momento do seu dia controlado que não conseguem inventar uma brincadeira espontaneamente.

Some à falta de tempo uma pilha de brinquedos eletrônicos que só exigem o apertar de um botão. São bonecos e jogos que não pedem por uma história, por um faz-de-conta, por qualquer construção. A criança vira espectadora, não interage com a brincadeira (lembrando que há benefícios nos games para tablets e computadores, como desenvolvimento da motricidade fina, raciocínio lógico e solução de problemas… Mas com moderação. Até os dois anos, nenhuma criança precisa ser exposta ao mundo virtual e, após essa idade, o tempo de uso não deveria passar de uma ou duas horas diárias).

Quando o brinquedo eletrônico perde a graça, vem a reclamação de tédio. Resista ao impulso de responder a ela com um novo joguinho ou ligando a televisão. Permita tempo para que a criança pense, busque e crie algo para fazer. Não é rápido, principalmente se ter seus desejos atendidos de imediato já se tornou rotina. Estimule esse comportamento tendo materiais simples como massa de modelar, pincéis ou lápis de cor, uma bola, blocos de montar e outros brinquedos desestruturados à disposição.

Deixar as crianças desocupadas não é sinônimo de colocá-las em frente à TV. Tempo livre é essencial para desenvolver a imaginação e criatividade (foto: Delta Jones)

Deixar as crianças desocupadas não é sinônimo de colocá-las em frente à TV. Tempo livre é essencial para desenvolver a imaginação e criatividade (foto: Delta Jones)

Crianças estressadas

É nos momentos livres, de brincadeira e descanso, que o aprendizado se consolida. Retirando esses períodos do dia a dia da criança, ela não tem tempo de processar as informações às quais é exposta – o que tem o efeito contrário ao desejado pelos pais: ela se torna infeliz, estressada e menos produtiva.

As crianças ficam cansadas, tanto quanto os adultos, mesmo quando vivem uma rotina flexível. Na correria, então, o sentimento de exaustão física e emocional aumenta. Não é por terem 2, 3 ou 4 anos que elas não sentem a pressão posta sobre elas ou deixam de perceber comparações, mesmo sutis, entre seu desempenho e o desempenho dos coleguinhas.

O excesso de atividades planejadas também gera estresse por tirar delas qualquer controle sobre sua vida. É importante que haja momentos em que as crianças possam dar sua opinião, escolher o que fazer e em que tempo fazê-lo. E que possam tomar essas decisões com a certeza do apoio dos adultos em volta, que devem saber se afastar e observar ou participar e ajudar conforme for indicado, nutrindo a sensação de segurança.

Habilidades socioemocionais

Aí estão elas novamente. Como o excesso de estímulo prejudica o desenvolvimento de competências sociais e emocionais?

De várias maneiras bastante óbvias que, às vezes, falhamos em perceber: crianças grudadas na tela da televisão não fazem contato visual, não se engajam em uma conversa, têm dificuldade em reconhecer e lidar com sentimentos. Crianças obrigadas a decorar conteúdos e copiar atividades sem se apropriar do conhecimento dificilmente irão pensar fora da caixa, gerar ideias originais ou construir algo fora do padrão. Crianças cujos desejos são atendidos imediatamente têm menos paciência, motivação, empatia e noção de consumo sustentável. Crianças que possuem horários rígidos e todas as horas do dia programadas desenvolvem menos independência, autonomia e criatividade.

Os eletrônicos podem ser aliados - mas o tempo excessivo em tablets e computadores é prejudicial ao desenvolvimento socioemocional (foto: Gigaom)

Os eletrônicos podem ser aliados – mas o tempo excessivo em tablets e computadores é prejudicial ao desenvolvimento socioemocional (foto: Gigaom)

A longo prazo, a rotina frenética ainda está relacionada a uma série de outros males, como a depressão e a obesidade infantil.

Hora de diminuir o ritmo

A solução não é cancelar todas as matrículas das crianças; algumas horas de atividades extracurriculares por semana podem ser bem aproveitadas. Contudo, garanta que elas estão participando de aulas que as interessam genuinamente (quem gostaria de ser um violinista famoso, o pai ou a filha?). Algumas disciplinas – como o inglês – não são negociáveis? Deixe que a criança escolha o esporte ou instrumento musical que quer praticar.

Acima de tudo, tenha tempo disponível para conversar, brincar ou não fazer nada juntos. Na escola, garanta o tempo no pátio, no parque, na sala sem um exercício pré-definido: deixe as crianças se organizarem, interagirem, inventarem. Em casa, reserve momentos para dormir até mais tarde, cozinhar juntos ou escolher a programação do fim de semana.

Lembre-se de que tempo livre não é falta de estímulo. É saber estimular com respeito pela infância, compreendendo o ritmo e a personalidade da criança em desenvolvimento.

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