Por que a Primeira Infância influencia a vida adulta (de mais formas do que você imagina)

O investimento na primeira infância gera um ciclo de desenvolvimento: se essas crianças, agora adultas, tiverem filhos, eles também terão acesso a um bom ensino, a um bom emprego, a uma remuneração alta e a uma vida mais saudável (foto: Picrolls)

Desenvolvimento Infantil/Socioemocional/Relatórios
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Por que a Primeira Infância influencia a vida adulta (de mais formas do que você imagina)

Quem convive com crianças pequenas, como professores de Educação Infantil, sabe que, nessa fase, elas parecem aprender muito rápido. Há quem faça analogias com esponjas, dizendo que as crianças na primeira infância absorvem tudo à sua volta – e, através de pesquisas, hoje sabemos que isso não está tão longe da verdade!

O cérebro infantil não nasce pronto, idêntico ao do adulto. Até os 3 anos de idade, ele cresce e se desenvolve a uma velocidade surpreendente: é quando a criança aprende a enxergar, detectar sons, andar, falar, identificar quantidades e construir uma série de outras habilidades. Esse processo, não tão acelerado, continua até os 6 anos, época crucial para o desenvolvimento da personalidade, do caráter e das capacidades fundamentais (a “base” que permitirá que a criança, quando crescer adquira habilidades mais específicas e refinadas).

Ou seja, toda criança ou adulto é capaz de aprender algo novo e o processo sempre vai exigir repetição, tentativa e erro. A diferença é que, na primeira infância, não é necessário repetir tantas vezes – o cérebro compreende mais rápido como deve reagir a cada estímulo e logo cria uma reação padrão.

Acontece que as crianças vão aprender tanto com estímulos positivos quanto negativos. Passar por situações de carinho e acolhimento ou por momentos de estresse vão ambos influenciar a vida adulta. Ir à uma creche ou pré-escola de qualidade vai beneficiá-la, enquanto uma de baixa qualidade pode trazer prejuízos ao desenvolvimento futuro.

O vídeo abaixo, produzido pelo Center on the Developing Child (CDC) da Universidade de Harvard, tem apenas 3 minutos e explica como as experiências na infância influenciam a vida adulta – e até mesmo toda a sociedade:

Educação

Ter experiências de qualidade entre os 0 e 6 anos está relacionado ao sucesso durante toda a vida escolar. Faz sentido: os aprendizados são acumulativos, certo? Basta pensar que nenhum aluno vai conseguir resolver equações de segundo grau se ainda não aprendeu a multiplicar e dividir.

O caminho inverso também vale: os déficits que forem surgindo pelo caminho tendem a crescer e se tornar mais difíceis de superar nos anos seguintes (o que vemos com tanta frequência na educação brasileira, em que jovens entram na universidade sem conseguir interpretar textos simples ou realizar operações básicas de matemática). Corrigir essas deficiências é muito mais trabalhoso – e mais caro – do que investir em um ensino consistente desde a infância.

O aprendizado é acumulativo: as crianças precisam de uma base sólida na primeira infância para continuar aprendendo durante a vida escolar (foto: Baker.Edu)

O aprendizado é acumulativo: as crianças precisam de uma base sólida na primeira infância para continuar aprendendo durante a vida escolar (foto: Baker.Edu)

Isso vale para outras áreas, como linguagem ou mesmo competências emocionais. Funções cognitivas como a atenção, a memória, o pensamento crítico e o planejamento já estão se desenvolvendo na primeira infância, ainda que continuem se refinando na adolescência. Essas habilidades surgem quando a criança precisa controlar seus impulsos, prestar atenção ou cumprir regras. Já foi comprovado que crianças que, desde cedo, são orientadas a persistir, lidar com o fracasso e resolver problemas têm mais chances de se formar no Ensino Médio e na faculdade. O índice de evasão escolar também diminui.

Por consequência, as crianças que passam por essa educação de qualidade vão, mais provavelmente, conseguir um emprego estável e com salário mais alto do que aquelas que não tiveram a mesma oportunidade. Isso gera um ciclo de desenvolvimento: se essas crianças, agora adultas, tiverem filhos, eles também terão acesso a um bom ensino, a um bom emprego, a uma remuneração alta… E assim por diante.

Mas atenção: não basta apenas que a criança esteja matriculada em uma creche ou pré-escola. Os impactos positivos estão ligados à qualidade da educação oferecida!

Comportamento e habilidades socioemocionais

As crianças vão reagir conforme os adultos em volta: se os pais e educadores se descontrolam, elas aprendem que essa é a forma de se lidar com problemas (foto: Love, play and learn)

As crianças vão reagir conforme os adultos em volta: se os pais e educadores se descontrolam, elas aprendem que essa é a forma de se lidar com problemas (foto: Love, play and learn)

As principais características da personalidade da criança vão se formar entre os 0 e os 3 anos de idade – e as experiências mais marcantes partem dos relacionamentos que a envolvem, seja com pais, parentes, cuidadores ou professores.

Esse é o momento para apresentar valores como respeito, ética, cidadania e paz. Afinal, a criança tende a absorver essas experiências sem questionar: ao presenciar cenas de preconceito, por exemplo, ela não consegue refletir sobre a ação ser certa ou errada, simplesmente passará a repetir o que aprendeu. É muito mais difícil desconstruir preconceitos em um adolescente ou adulto do que educar a criança, desde a primeira infância, para tratar todos igualmente.

Da mesma forma, é através da interação com os adultos que ela vai aprender a lidar com conflitos e imprevistos. Quando os pais ou professores reagem com exagero ou se desesperam diante de qualquer arranhão, a criança passa também a responder com estresse a qualquer acontecimento. Ambientes em que os adultos gritam demais ou agridem um ao outro mostram que essa é a maneira correta de se conseguir o que quer.

Criar espaços de segurança, tranquilidade e afeto; tratar o fracasso como parte natural do aprendizado e apoiar as tentativas de independência da criança são determinantes para que ela aprenda a lidar de forma saudável com desafios, situações estressantes ou frustrantes. Assim, ela terá facilidade em se adaptar a diferentes ambientes.

Saúde

Crianças que crescem em ambientes seguros e saudáveis têm menos chances de desenvolver doenças crônicas como obesidade, diabetes ou depressão (foto: YMCA Calgary)

Crianças que crescem em ambientes seguros e saudáveis têm menos chances de desenvolver doenças crônicas como obesidade, diabetes ou depressão (foto: YMCA Calgary)

Os benefícios não param por aí. Crianças que recebem cuidados de qualidade desde o nascimento, seja com a família, seja na escola, ainda têm menos chances de desenvolver problemas de saúde. Esses cuidados envolvem não somente o ensino, mas a nutrição, o acompanhamento médico adequado, o afeto e a sensação de segurança.

Tendo essas oportunidades quando pequenas, elas, quando adultas, têm menor propensão a apresentar obesidade, diabetes, depressão e problemas cardíacos. As chances de se envolver com tabagismo, alcoolismo e uso de drogas pesadas também diminuem. Essas crianças tendem a viver mais e com mais qualidade de vida!

Economia, política e segurança

O ciclo “vida saudável – boas oportunidades – aumento de renda” continua trazendo benefícios. Uma primeira infância de qualidade faz com que os índices de violência e criminalidade durante a adolescência e a vida adulta despenquem. Também diminuem os casos de suicídios e homicídios, especificamente.

Além disso, crianças que têm mais oportunidades irão precisar de menos ajuda do governo para sobreviverem quando adultas (através de programas de transferência de renda como o Bolsa Família, por exemplo).

O investimento na primeira infância gera um ciclo de desenvolvimento: se essas crianças, agora adultas, tiverem filhos, eles também terão acesso a um bom ensino, a um bom emprego, a uma remuneração alta e a uma vida mais saudável (foto: Picrolls)

O investimento na primeira infância gera um ciclo de desenvolvimento: se essas crianças, agora adultas, tiverem filhos, eles também terão acesso a um bom ensino, a um bom emprego, a uma remuneração alta e a uma vida mais saudável (foto: Picrolls)

Tudo isso comprova que investir em programas de primeira infância de qualidade, em capacitação de professores, em creches e pré-escolas com a estrutura adequada não é, na verdade, um gasto extra para o governo – é uma economia.

Pesquisas americanas já provaram que, a cada dólar investido em crianças de 0 a 6 anos, o país economiza 7 dólares em assistência social, atendimento a doenças mentais, manutenção de presídios, repetência e evasão escolar. Esse mesmo um dólar investido na primeira infância economiza 15 dólares por pessoa no tratamento de doenças crônicas (como a depressão ou o vício).

Os estímulos dos pais, familiares e educadores são essenciais ao bom desenvolvimento. Contudo, não são suficientes sem um olhar cuidadoso dos nossos governantes.

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Mais brincadeira, menos consumismo: 6 atividades para comemorar o Dia das Crianças na Educação Infantil

O Catavento, em São Paulo, é um museu interativo dedicado às ciências (foto: Catavento)

Atividades/Movimento/Música e artes/Registros
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Mais brincadeira, menos consumismo: 6 atividades para comemorar o Dia das Crianças na Educação Infantil

O Dia das Crianças está chegando e, com ele, as discussões sobre consumismo e publicidade na infância esquentam. Não é de se espantar – nessa época, as propagandas na TV se multiplicam, lojas de brinquedos lançam suas novidades, e até mesmo redes de restaurantes e marcas de alimentos se associam a personagens queridos.

No Brasil, crianças passam em média 5 horas por dia em frente à televisão, sendo expostas a esse tipo de campanha. O problema é que, quando pequenas, elas não compreendem a diferença entre um anúncio e a realidade (a boneca não voa de verdade, o carro não realiza manobras sozinho) e, portanto, são mais suscetíveis às marcas.

A publicidade relacionada à alimentação também entra em debate: lanches que entregam bonecos e brinquedos como “brinde” não costumam ser os mais saudáveis. Isso em um país em que 15% das crianças já cruzou a linha da obesidade.

Propor um Dia das Crianças mais saudável e com menos consumismo é uma alternativa disponível a pais e escolas que querem transmitir valores sustentáveis: trocar e produzir, brincar e criar experiências ao invés de comprar. A Eduqa.me separou algumas ideias para celebrar a data com consciência na Educação Infantil.

Organize uma gincana ao ar livre

Leve sua turma para o pátio, divida times e lance os desafios. É importante pensar na faixa etária da sua turma antes de definir as brincadeiras: estas são indicadas para crianças de 4 e 5 anos, por exemplo.

Corrida de lata

(foto: Biblioteca Viva Itinerante)

(foto: Biblioteca Viva Itinerante)

Use duas latas com barbantes para criar os sapatos de lata de cada criança – é necessário ter ao menos dois pares para a corrida. O objetivo da brincadeira é que as crianças subam em seus sapatos de lata e caminhem com ele por um trajeto definido pelo professor. Você pode usar cordas ou fita crepe para traçar o caminho.

Parece fácil, mas não é: só faça essa brincadeira em áreas macias, como um gramado, nunca sobre concreto! Assim, caso as crianças caiam, não haverá acidentes. Também não delimite uma pista de corrida longa demais; sempre leve em conta as habilidades da turma!

Caça ao tesouro

Essa é uma atividade clássica que envolve toda a turma. Esconda pistas pela escola, sejam elas por escrito ou com imagens (caso as crianças ainda não sejam alfabetizadas). Cada pista deve levar os caçadores a um outro lugar, com uma nova pista, até que eles cheguem ao tesouro!

Deixe bem claro para as crianças em quais áreas eles podem procurar pistas para não perturbar outros professores e classes – se a brincadeira for apenas no parquinho, explique isso antes de começarem. Como prêmio, deixe de lado balas e pirulitos e continue com a proposta: que tal colocar o material da próxima brincadeira no baú do tesouro? Ou material de artes para que as crianças façam cartões para os colegas?

Missão impossível

(foto: Tempo Junto)

(foto: Tempo Junto)

Já assistiu a filmes de espiões em que eles precisam desviar lasers para entrar em um museu ou mansão? Esse é o espírito da brincadeira, mas os lasers serão tiras de papel crepom (barbante também pode ser usado, mas a vantagem do crepom é que ele se rasga facilmente, sem machucar as crianças caso elas tropecem).

Monte o desafio em um corredor ou quadra de esportes, adaptando o nível de dificuldade de acordo com a idade das crianças. O objetivo é atravessar os lasers sem encostar nos fios até chegar do outro lado!

Acerte o alvo

Pendure um bambolê em um galho de árvore, muro ou parede e dê bolinhas às crianças (essas de plástico, comuns em piscinas de bolinhas, ou outras opções de bolas pequenas e macias, que não machuquem). A brincadeira consiste em acertar o alvo: a bolinha deve atravessar o bambolê.

Essas são apenas algumas possibilidades para a gincana na Educação Infantil. Confira os sites Tempo Junto e Massacuca para mais ideias e inspirações.

Faça uma feira de trocas

O Dia das Crianças é uma oportunidade para conversar com sua turma de Educação Infantil sobre consumo consciente: quando é preciso comprar algo novo e quando podemos encontrar outras soluções? O que eu tenho é valioso para alguém? Alguém tem – e não usa mais – o que eu gostaria de ter? Por que não trocar?

Combine com os pais e a coordenação com antecedência para organizar uma Feira de Trocas na escola. É simples: cada criança escolhe, com ajuda dos pais, um brinquedo ou jogo que não utilize mais e o leva para a aula. As crianças podem expor o que trouxeram e cada uma vai escolher algo novo da pilha.

O professor também pode escolher um modelo de “amigo-secreto”, em que as crianças sorteiam o nome de um coleguinha para quem dar seu brinquedo; isso pode evitar conflitos caso várias crianças queiram a mesma coisa. Algumas escolas já realizaram a experiência – e há até sites que ajudam a planejar o encontro!

Pense ainda em fazer uma feira literária, em que as crianças trocam livros infantis ou gibis – além de divertido, incentiva a leitura!

Monte uma oficina de brinquedos

Que tal ensinar às crianças a fazer pipas, estilingues, bilboquês ou pandeiros? Escolha brinquedos simples, que você, seus pais ou avós costumavam ter quando eram pequenos!

Bilboquês são fáceis de fazer: as crianças só precisam de uma garrafa plástica com tampa e barbante (foto: Pensamento Verde)

Bilboquês são fáceis de fazer: as crianças só precisam de uma garrafa plástica com tampa e barbante (foto: Pensamento Verde)

Porém, lembre-se de pedir que as famílias contribuam apenas com materiais que já teriam em casa – de nada vale trabalhar o material reciclável obrigando os pais a consumir algo extra, que não faz parte da rotina da casa. Se cada criança contribuir com o que puder (garrafas pet, caixas de cereal, latinhas, copinhos de plástico, etc.), vocês com certeza terão opções divertidas do que construir!

Se a escolha for construir instrumentos musicais, junte a turma para fazer uma banda ao fim da aula. Toque músicas infantis e deixe que as crianças acompanhem o som com suas produções.

Crie um mural sobre infância

Pegue lápis de cor, canetinhas, pincéis, tinta, esponjas, recortes de revistas, cola colorida, purpurina, bolas de algodão… A imaginação é o limite. Estenda uma folha grande de papel craft no centro da sala de aula para que as crianças possam se sentar em volta e desenhar.

A proposta é que o professor dê um tema, que pode ser simplesmente “o que é ser criança” ou “qual sua brincadeira favorita” até um projeto mais longo, como, por exemplo, “como vivem as crianças do mundo”, em que a turma possa conhecer os hábitos da infância em outras culturas. Tudo isso será colocado no painel de acordo com a interpretação da turma – a obra final pode ser exposta no corredor da escola ou encontro de pais!

Faça massinha de modelar

(foto: Blog Elian)

(foto: Blog Elian)

As crianças adoram atividades em que podem colocar a mão na massa – e essa é bem literal. Coloque 1 xícara de água, 2 de farinha, meia xícara de sal e 1 colher de óleo em uma bacia grande e deixe que a turma misture a meleca até ganhar consistência.

Crie estações espalhando várias bacias pelo chão para que todas as crianças consigam se aproximar e participar. Cada estação pode ganhar uma cor de tinta guache para misturar à massa, fazendo massinha de modelar colorida. Depois, é só dividir e deixar que cada um crie o que quiser!

Vá passear

O Catavento, em São Paulo, é um museu interativo dedicado às ciências (foto: Catavento)

O Catavento, em São Paulo, é um museu interativo dedicado às ciências (foto: Catavento)

Passeios escolares precisam ser planejados com antecedência – o transporte e a alimentação, o número de professores para cuidar das crianças e a autorização dos pais são tópicos que devem estar muito bem resolvidos antes de a turma sair da sala de aula. Mas, superada a burocracia, não faltam lugares interessantes para as crianças conhecerem.

Considere passar o Dia das Crianças da sua turma no zoológico, jardim botânico, museus, planetários, teatros, bibliotecas, parques, corpo de bombeiros, aquário, etc., etc., etc. Ou, ainda, organize uma visita a um orfanato ou hospital infantil para que elas possam compartilhar seu tempo e doar roupas, alimentos, livros e brinquedos para crianças em necessidade: às vezes, só a companhia já um presente imenso. Já a sua turma vai ter uma grande lição de cidadania.

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O problema de alfabetizar as crianças cedo demais

Atividades lúdicas que estimulem a concentração e a motricidade fina são indicadas para uma pré-alfabetização saudável, que respeite o ritmo da criança (foto: The Learning Garden Kids)

Atividades/Linguagem/Desenvolvimento Infantil/Desenvolvimento cognitivo/Socioemocional/Registros/Relatórios
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O problema de alfabetizar as crianças cedo demais

A Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) foi criada pelo Ministério da Educação (MEC) em 2013 para identificar os índices de alfabetização e letramento em língua portuguesa e matemática de crianças entre 8 e 9 anos. Segundo o documento básico, disponível no site do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), o objetivo é “concorrer para a melhoria da qualidade de ensino e redução das desigualdades, em consonância com as metas e políticas estabelecidas pelas diretrizes da educação nacional”.

Testes nacionais para avaliar a alfabetização podem fazer com que pré-escolas comecem o letramento cedo demais para aumentar suas notas (foto: New Castle School)

Testes nacionais para avaliar a alfabetização podem fazer com que pré-escolas comecem o letramento cedo demais para aumentar suas notas (foto: New Castle School)

Porém, esta avaliação está reforçando uma visão que já existe em muitas escolas de educação infantil. Em entrevista para a Revista Educação, a professora Sandra Zákia Sousa, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), argumentou que a ANA faz com que os professores de Educação Infantil antecipem os processos de alfabetização e letramento, pulando etapas importantes no desenvolvimento da criança, como coordenação motora e capacidade de raciocínio e concentração. Na mesma reportagem, Luiz Carlos de Freitas, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), defende que essa avaliação deveria acontecer somente a partir do final do Ensino Fundamental.

O letramento precoce tem sido tema de diversos debates e motivou a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STF) em fevereiro deste ano, que decidiu que crianças menores de 6 anos não podem ser matriculadas no Ensino Fundamental, ainda que tenham capacidade intelectual comprovada por avaliação psicopedagógica. A posição em relação ao tema tem influenciado os diversos formatos de escolas de Educação Infantil: enquanto há escolas infantis que antecipam lições ligadas à leitura, à escrita e à matemática na fase do antigo “pré-primário”, há instituições cuja linha pedagógica defende que a criança precisa priorizar o desenvolvimento de outras habilidades antes de se alfabetizar.

Atividades lúdicas que estimulem a concentração e a motricidade fina são indicadas para uma pré-alfabetização saudável, que respeite o ritmo da criança (foto: The Learning Garden Kids)

Atividades lúdicas que estimulem a concentração e a motricidade fina são indicadas para uma pré-alfabetização saudável, que respeite o ritmo da criança (foto: The Learning Garden Kids)

Esse argumento tem embasamento teórico em filósofos como o austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), um dos introdutores da pedagogia Waldorf, que defende que crianças com até 7 anos de idade devem se preocupar somente em brincar.  Ao participar de jogos e atividades lúdicas, os pequenos desenvolvem a confiança em seu corpo e em suas potencialidades, o que é essencial para encarar a maior parte das atividades da vida, além das habilidades físicas e motoras, que são fundamentais para o desenvolvimento neurológico e sensorial. Se essa fase for vivida de maneira adequada, meninos e meninas terão maior domínio corporal, linguagem oral e, principalmente, capacidade para se adaptar às situações.

Na mesma linha, o psicólogo bielorrusso Lev Vygotsky defendia que a alfabetização fosse um processo gradual estimulado desde a primeira infância, mas sem que atividades mecânicas de leitura e escrita atrapalhassem ou forçassem as etapas de desenvolvimento.

Ao estimular precocemente a leitura e a escrita, a criança pode sofrer problemas como deficiências na coordenação motora, apatia, desinteresse, desmotivação e estresse.

Por isso, a educação infantil deve se preocupar em proporcionar atividades condizentes com a fase de desenvolvimento da criança e respeitar as necessidades dessa etapa da vida, que é, sobretudo, brincar. Forçar o avanço na alfabetização antes do tempo pode criar traumas e dificuldades maiores no futuro.

Leia sobre Personalização do Ensino na Educação Infantil e entenda mais sobre o assunto.

Na Eduqa.me é possível fazer esse registro de um jeito simples, individual e  bem rico. Com poucos clique você faz anotações, fotos e vídeos. Com esses indícios organizados é possível compartilhar com seu coordenador e refletir sobre cada aluno percebendo quais habilidades eles possuem e quais precisam ser desenvolvidas.

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Pais ou professores: quem deve impor limites na Educação Infantil?

Explicar e conversar funciona até certo ponto. Depois, é preciso que o adulto fique firme e exija o comportamento correto com calma e controle da situação (foto: NBC News)

Desenvolvimento Infantil/Socioemocional
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Pais ou professores: quem deve impor limites na Educação Infantil?

A indisciplina ou agressividade na escola são queixas recorrentes dos professores – e, normalmente, a família é apontada como responsável pelo mau comportamento. Afinal, não é função dos pais impor limites e educar as crianças quanto ao que é certo e errado para que elas saibam como agir em outros ambientes?

Em partes, sim. Contudo, isso não livra o professor de seu papel como educador. Apesar de em contextos diferentes, a escola também faz parte da construção de limites das crianças, e não atua apenas transmitindo de conteúdo (especialmente na Educação Infantil, em que a preocupação deve ser o desenvolvimento integral do ser humano). É preciso distinguir a educação de casa e da escola.

Escola ou família: quem ensina o quê?

A família é a primeira instituição social, o primeiro grupo com determinadas regras, ao qual a criança tem contato. Ela é responsável por trabalhar a ética e os valores, os direitos e deveres de cada um, o respeito às outras pessoas. E, é claro, a noção de limites e responsabilidades e o respeito (e não medo) por autoridades.

Porém, não é até entrar na escola que a criança precisa conviver de fato com diferenças e aprender a atuar em uma sociedade. Isso, é claro, causa um momento de estresse e frustração absolutamente normal: a socialização é difícil e implica deixar de ser o centro das preocupações dos adultos para, ao invés disso, dividir essa atenção com os colegas; ver-se obrigado a fazer coisas que não gostaria e abrir mão de brinquedos para compartilhá-los com o grupo; obedecer regras para o bem de todos e seguir uma rotina desconhecida.

A escola, portanto, cumpre uma tarefa essencial de mostrar aos alunos o senso de coletividade e a necessidade de normas para que todos vivam em harmonia.

A pré-escola é o primeiro ambiente em que a criança é parte de uma sociedade - e aprender regras de convivência faz parte disso (foto: The Village School)

A pré-escola é o primeiro ambiente em que a criança é parte de uma sociedade – e aprender regras de convivência faz parte disso (foto: The Village School)

Quando começar a impor limites?

Desde o primeiro dia, tanto em casa quanto na escola. Na primeiríssima infância, dos 0 aos 3 anos, as crianças estão em uma fase chamada egocêntrica e hedonista: buscam a satisfação imediata e ainda não conseguem entender outros pontos de vista – todo o mundo se resume a elas, ao que sentem e precisam.

Sim, elas são fofas e você pode morrer de pena, mas, mesmo com essa idade, as crianças compreendem o que é certo e errado. Estabelecer rotinas e regras nessa fase transmite segurança e conforto.

Por outro lado, entre os 3 e os 5 anos, elas passam a desenvolver mais independência. É a época de testar limites e descobrir o quanto conseguem fazer por conta própria. Também pode ser um período de agressividade e birra, caso os limites não sejam bem definidos e claros.

Ou seja, na Educação Infantil, elas vão experimentar agressões, mordidas, choro, xingamentos, gritos e todo tipo de pressão que possam conceber para conseguir o que querem. Isso não significa, de jeito nenhum, que essas crianças são más – a tentativa faz parte do desenvolvimento e todos esses sinais de rebeldia são formas de comunicação. Cabe aos adultos mostrar que eles não são eficientes, tampouco o caminho adequado para atingir qualquer objetivo.

Choros e acessos de raiva são reações normais ao "não" - nem por isso os pais e professores devem abandonar os limites (foto: The Huffington Post)

Choros e acessos de raiva são reações normais ao “não” – nem por isso os pais e professores devem abandonar os limites (foto: The Huffington Post)

Como garantir limites firmes – sem ser um ditador?

Até aqui, falamos sobre como os limites devem ser estipulados e colocados em prática, mesmo quando as crianças se esforçam para atravessá-los. Ainda que a maioria dos pais e educadores concorde com a teoria, manter-se firme é outra história; é comum acabar criando exceções por medo de ser autoritário demais… Ou por pura exaustão.

Dentro de casa, regras e limites são cada vez mais raros. É o que diz Tânia Zagury no livro “Escola sem conflito: Parceria com os pais”: “Os pais têm larga parcela de culpa no que diz respeito à indisciplina dentro da classe. É uma situação cada vez mais comum: eles trabalham muito e têm menos tempo para dedicar à educação das crianças. Sentindo-se culpados pela omissão, evitam dizer não aos filhos e esperam que a escola assuma a função que deveria ser deles: a de passar para a criança os valores éticos e de comportamentos básicos”. Criadas em ambientes onde todos os seus desejos são prontamente atendidos, é lógico que as crianças repetirão esse modelo em outras situações, inclusive na escola.

Acontece que esse sentimento de culpa e dúvida ao impor regras não afeta somente os pais. Professores também se encontram incertos quanto a onde traçar limites e temem se tornar autoritários demais. Quando não o fazem, questionam se estão sendo omissos ou incapazes.

Isso ocorre quanto o professor não está confortável para educar aquelas crianças: por medo da reação dos pais ou da coordenação ou mesmo por não conhecer suficientemente a história de cada criança para saber como agir. É preciso estreitar a comunicação entre a escola e a família, entender o comportamento dos pais e da criança em casa e como isso se reflete em sala de aula.

A família deve estar de acordo e apoiar as decisões do professor e, para tal, deve ser sempre bem informada. Conversas para explicar as dificuldades de comportamento podem ser acompanhadas de material de leitura que embase o que o professor está sugerindo. Falem sobre o equilíbrio entre limites e liberdades e esclareçam todas as dúvidas de ambos os lados.

Família e escola devem caminhar juntas: entender a rotina da criança em casa vai ajudar a lidar com seu comportamento em sala (foto: Huffpost)

Família e escola devem caminhar juntas: entender a rotina da criança em casa vai ajudar a lidar com seu comportamento em sala (foto: Huffpost)

Outra chave para impor limites com sabedoria é respeitar a criança e não ferir sua autoestima. Garanta que ela compreende o porquê de poder ou não fazer algo e as consequências de suas ações – explique com firmeza e em poucas palavras, sem enrolação, e então faça perguntas para ver se ela entendeu. Evite dar castigos e punições humilhantes ou fazer comentários pejorativos; chame a atenção em particular, sempre que possível, e não diante de todos os colegas.

Pequenas atitudes para impor limites

Antes de mais nada, saiba que impor limites não é algo que vai começar e terminar em uma única aula. Demora. O professor terá que repetir a mesma coisa consistentemente, centenas de vezes, até que os resultados apareçam – e isso não quer dizer que você esteja fazendo errado.

Cumpra o que diz

Se você afirmou que “todos devem guardar seus materiais antes de ir para o parquinho”, nada de abrir exceções porque está com pressa ou cansada. Mantenha sua palavra, pois é essa constância que trará autoridade. As crianças passam a entender que você está falando sério quando pede algo ou dá instruções e, por isso, obedecerão logo no primeiro chamado.

Fale com calma

Não se altere, gritando ou xingando a turma desobediente. Sempre que for explicar ou pedir algo a uma criança, vá até ela e abaixe-se para ficar da mesma altura. Mantenha a voz baixa, o que mostra que você está no controle da situação.

Dê apenas um aviso

Nada de ficar ameaçando, ameaçando e nunca cumprir. Avise uma única vez que algo precisa ser feito e porque. Dar vários avisos vazios mostra às crianças que o professor (ou pai) não acredita naquilo que está dizendo e que nada vai acontecer a ela, portanto, não precisam cumprir o que foi mandado.

Explicar e conversar funciona até certo ponto. Depois, é preciso que o adulto fique firme e exija o comportamento correto com calma e controle da situação (foto: NBC News)

Explicar e conversar funciona até certo ponto. Depois, é preciso que o adulto fique firme e exija o comportamento correto com calma e controle da situação (foto: NBC News)

Esqueça barganhas e ameaças – elas funcionam contra você

Oferecer prêmios por tarefas que deveriam ser obrigação das crianças (como arrumar os próprios brinquedos) não somente tira o sentido de coletividade e responsabilidade como ensina que elas podem exigir mimos o tempo todo – originando situações em que elas podem perguntar “e o que eu vou ganhar com isso?”.

Ameaças tampouco funcionam. A psicóloga Diane Levy, autora do livro “É claro que eu te amo… Agora vá para o seu quarto!” conta como essa atitude dá espaço para a criança recusar o trabalho: “Aprendi essa lição muito cedo com o meu filho. Quando dizia ‘Robert, se você não guardar seus brinquedos agora, não iremos ao parque esta tarde’, ele apenas respondia ‘tudo bem’. E eu ficava sem saber para onde ir”.

Caso você recorra às ameaças, lembre-se de que deve seguir com sua palavra até o final: caso tenha prometido que a uma criança que ela ficaria cinco minutos do recreio dentro da sala, ela deve ficar – então, pense bem se você possui equipe suficiente para assistir a turma no pátio e a criança dentro da escola.

Valorize a autonomia

Por fim, lembre-se que limites caminham lado a lado com a liberdade. Permita que as crianças façam por conta própria aquilo que já são capazes de fazer, dê apoio e incentive tentativas.

Diga não quando necessário, porém, em vez de proibir sem mais explicações, sempre sugira alternativas a um mau comportamento, mostrando maneiras saudáveis de lidar com sentimentos ou de se conseguir o que quer.

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