A diferença entre brincar e ter brinquedos

“Acredito que o brincar desenvolva, não o brinquedo”.

(Graziella Iacocca – co-criadora do Massacuca)

Qualquer objeto pode virar brinquedo e entreter por horas - essa é a premissa do Massacuca (foto: Massacuca)
Qualquer objeto pode virar brinquedo e entreter por horas – essa é a premissa do Massacuca, um blog de atividades infantis (foto: Massacuca)

Há duas semanas, a Eduqa.me participou de um laboratório de empreendedorismo social em Florianópolis, o Social Good Brasil Lab. Foram três dias de imersão com outros 24 projetos de todo o país e equipes ansiosas por transformar suas realidades. Durante aulas e desafios cronometrados, tivemos a oportunidade de conhecer muita gente que, como nós, está se dedicando à uma infância melhor – incluindo as mães do Massacuca, um site que quer retomar as brincadeiras lúdicas em casa e na escola.

A proposta é pegar materiais disponíveis em qualquer lar e transformá-los em brinquedos que instiguem a curiosidade e imaginação das crianças. A inspiração surgiu de lembranças queridas: “Tenho pouca memória dos meus brinquedos, mas lembro nitidamente das coisas que meus pais inventavam”, conta Graziella Iacocca, uma das criadoras do blog. Ela e Renata Maria eram amigas e tiveram filhos na mesma época, o que serviu de gatilho para iniciar o empreendimento. “Descobrimos que possuíamos linhas de pensar muito similares quanto ao que queríamos para nossas crianças. Começamos a trocar ideias e, daí, veio a vontade de fazer o projeto e compartilhar esse aprendizado com outras pessoas”.

Ideias, aliás, que já são defendidas por vários especialistas, que alegam que o excesso de bonecos ligados a personagens televisivos ou movidos a pilhas e baterias está prejudicando o desenvolvimento infantil.

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É o que alega a educadora e ativista americana Susan Linn, autora do livro “The Case for Make Believe” (em português, algo como “Em defesa do Faz-de-Conta”). Segundo ela, esse tipo de brinquedo diminui a autonomia dos pequenos ao impedi-los de explorar suas possibilidades. “Tudo o que eles precisam fazer é apertar um botão e o boneco pula, dança, acende luzes… E a criança só senta ali, assistindo, quase sem qualquer interação”, explica ela.

Diversos males brotam desse relacionamento pobre; dentre eles, a falta de concentração (devido ao excesso de oferta), a incapacidade de esperar por uma recompensa (já que as respostas de jogos virtuais são imediatas), o perda do cuidado e, obviamente, da imaginação. Daí a dificuldade de muitas crianças em brincar sozinhas ou encontrar algo para fazer quando o tablet é guardado na gaveta. Acostumados a jogos prontos, é mais difícil enxergar em um rolo de papel higiênico uma luneta ou um canhão.

Não é de surpreender que a máxima da autora seja: “Os melhores brinquedos são 90% criança e 10% brinquedo”. Máxima que se encaixa perfeitamente às atividades do Massacuca, cujo blog é recheado de sugestões criativas para passar tempo de qualidade com as crianças – e sem gastar muito. As criadoras do projeto falam sobre o brincar e resgate da simplicidade.

Usar bonecos de personagens famosos limita a imaginação. O melhor é deixar que a criança explore as possibilidades de cada material e invente a própria brincadeira (foto: Massacuca)
Usar bonecos de personagens famosos limita a imaginação. O melhor é deixar que a criança explore as possibilidades de cada material e invente a própria brincadeira (foto: Massacuca)

Qual a importância do brincar nos primeiros anos de vida?

Grazi: Brincar é uma ferramenta muito poderosa no desenvolvimento físico e emocional da criança. Estimula a capacidade de investigar, de fazer descobertas, de imaginar, de conhecer o próprio corpo e enfrentar desafios. É também uma maneira muito rica de interagir com o outro e com o mundo ao redor, de conectar adultos e crianças. No site do Massacuca, procuramos mostrar como as atividades podem ajudar a exercitar a coordenação motora, o raciocínio lógico, a concentração e a linguagem – mas os benefícios são muito mais amplos.

O que significa o “lúdico” de que tanto se fala? Como criar ambientes e momentos de ludicidade?

Grazi: Ser lúdico é divertir, é transformar qualquer atividade simples em algo prazeroso.

Renata:  Mais importante do que criar um ambiente ludico, cheio de brinquedos, jogos ou objetos é criar momentos lúdicos: contar uma história fazendo vozes diferentes, usar objetos do cotidiano de casa de outra maneira, brincar de correr, se esconder, cantar. São momentos de ludicidade que podem ser feitos em qualquer lugar e por qualquer pessoa.

Grazi: Até porque, crianças são imaginativas e curiosas, podem achar muita graça em fazer coisas que consideramos chatas, mas que fazem parte do dia-a-dia. É possível, por exemplo, arrumar o quarto ou colocar a roupa suja para lavar de um modo divertido, brincalhão. A vida fica mais fácil e menos tensa quando existem momentos lúdicos.

Por que introduzir brinquedos simples, feitos com palitos ou garrafas, a crianças que têm uma infinidade de opções mais modernas? O que esses brinquedos analógicos podem acrescentar?

Grazi: Ter apenas coisas que piscam, giram e fazem tudo sozinhas dificulta o uso da imaginação e do pensamento analítico. Acho incrível ver como as crianças são capazes de transformar qualquer objeto em algo interessante, fazendo descobertas e alimentando o faz de conta. Brinquedos mais simples têm esse poder de transformação, de ser um foguete ou uma boneca no mesmo objeto. E acho fundamental trabalhar com a criança conceitos como transformar, reciclar. São preocupações fundamentais nos dias de hoje, ao invés de incentivar o consumismo e o acúmulo de brinquedos.

O blog oferece fotos de todo o processo de confecção dos brinquedos, além de indicadores de bagunça e dificuldade de preparo (foto: Massacuca)
O blog oferece fotos de todo o processo de confecção dos brinquedos, além de indicadores de bagunça e dificuldade de preparo (foto: Massacuca)

Uma criança que possui muitos brinquedos em casa e na escola automaticamente se desenvolve melhor?

Renata: Não necessariamente. Algumas correntes educacionais defendem que quanto menos brinquedos, melhor, já que a criança passa mais tempo com uma quantidade menor de objetos e, consequentemente, trabalha a concentração. Inclusive, existem escolas que não têm brinquedos, onde o ambiente e as atividades já são consideradas e exploradas no brincar da criança. Outras escolas incentivam a construção dos próprios brinquedos.

Grazi: Em muitos casos, o excesso de brinquedos cria estímulos demais e dificulta o foco da criança, gerando ansiedade. Acredito que o brincar desenvolva, não o brinquedo.

Qual o papel do adulto na hora da brincadeira? O quanto se deve deixar a criança sozinha para explorar ou mediar para garantir novas descobertas?

Renata: É uma discussão que temos constantemente aqui no Massacuca. Chegamos à conclusão de que é importante respeitar a relação da criança com o brincar – algumas crianças exploram sozinhas, outras gostam da interação com um adulto. Brincar é também fortalecer vínculos emocionais muito fortes, portanto, se uma criança pede ajuda ou quer que sua mãe ou pai guie a brincadeira, o mais importante é respeitar esse sentimento, para que ela se sinta segura o suficiente para brincar sozinha no futuro.

Grazi: O grande desafio é observar e não deixar que a ansiedade do adulto interfira. Afinal, muitas vezes o adulto cria uma expectativa em relação ao resultado. Acredito que não exista certo ou errado, nem resultados planejados; a experiência é o realmente importa.

Com o sucesso do site, as mães estão organizando brincadeiras coletivas e oficinas de brincadeira para apresentar novas ideias (foto: Massacuca)
Com o sucesso do site, as mães estão organizando brincadeiras coletivas e oficinas de brincadeira para apresentar novas ideias (foto: Massacuca)

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