Já trabalhei em uma escola onde tudo era motivo para manter as crianças dentro do prédio: a lama nos tênis sujaria o piso, as gargalhadas muito altas perturbariam outras turmas, alguém poderia se machucar, “acho que vai chover”. Realmente, o trabalho de toda a equipe, desde professores até funcionários que cuidam da limpeza, se torna mais fácil uma vez que os alunos estão sempre entre quatro paredes. O desenvolvimento infantil, porém, é prejudicado – e não apenas nas habilidades físicas, como você poderia imaginar.

Sim, as crianças ficarão sujas no pátio. Algumas provavelmente voltarão com arranhões e podem acontecer pequenos conflitos entre colegas. Respire fundo. Tudo isso é positivo (até mesmo as brigas) e está estimulando o cérebro. Como? Vamos aos fatos.

Pesquisas mostram que brincar ao ar livre melhora desde a saúde até o aprendizado (foto: Huff Post)

Pesquisas mostram que brincar ao ar livre melhora desde a saúde até o aprendizado (foto: Huff Post)

O que dizem as pesquisas

Há inúmeros estudos sobre o tema que comprovam os benefícios de se deixar as crianças brincarem ao ar livre. Uma pesquisa da Universidade de Regina, no Canadá, acompanhou 306 crianças e jovens para medir o tempo que cada um deles passava brincando do lado de fora. Concluíram que aqueles que gastavam mais horas ao ar livre não só estavam em melhor forma física como eram 3 vezes mais propensos a atender às diretrizes de atividades físicas diárias.

Outra pesquisa, chamada de Teoria da Higiene, afirma que estar em contato com a natureza – e com a sujeira, as bactérias e tudo o mais que preocupa pais e cuidadores – é, na verdade, positivo e ajuda na criação de anticorpos. Crianças acostumadas a ambientes esterilizados, por outro lado, têm maior tendência a ficar doentes e desenvolver alergias.

A coletividade e o trabalho em equipe são algumas das competências estimuladas nas brincadeiras ao ar livre (NPR)

A coletividade e o trabalho em equipe são algumas das competências estimuladas nas brincadeiras ao ar livre (NPR)

Quais as vantagens de brincar lá fora

A lista é longa. De acordo com pediatras, psicólogos e educadores, brincadeiras ao ar livre estimulam:

  • A atividade física – ter espaços abertos para correr torna as crianças mais ativas e elas passam a ter mais energia para realizar qualquer tarefa;
  • O aprendizado – quanto mais a criança se move nos primeiros anos de vida (dos 0 aos 6), maior é o estímulo cerebral. Isso ocorre especialmente no cerebelo, região responsável pela organização espacial e equilíbrio. O desempenho em sala de aula também melhora: há uma relação positiva entre os exercícios físicos e brincadeiras coletivas com o rendimento intelectual;
  • A criatividade – levar as crianças para o pátio sem brinquedos pré-fabricados permite que elas inventem as próprias brincadeiras e coloquem a imaginação para funcionar. Por estarem em um ambiente em que nem tudo é controlado, elas aprendem a lidar com imprevistos e elaborar soluções;
  • A autonomia – crianças que brincam ao ar livre com maior frequência costumam ser mais independentes. Mas, atenção: para isso, é preciso que os adultos se afastem e permitam espaço para que elas mesmas tentem resolver seus problemas;
  • A coletividade (ou as relações sociais) – nada de deixar cada um brincando em um tablet ou celular. Desenvolva atividades em grupo, que ensinam os pequenos a criar laços entre si, lidar com discordâncias e comportamentos alheios. Se possível, permita que turmas de idades diferentes passem tempo juntas; dessa forma, elas aprenderão mais umas com as outras;
  • A saúde – a princípio, brincar do lado de fora faz com que as crianças desenvolvam anticorpos e se tornem mais resistentes a doenças. A luz do sol também é necessária para o crescimento saudável. Contudo, outro ponto positivo é que elas passem a conhecer seus corpos e saibam quando estão bem (ao arranhar um joelho, por exemplo), ou quando de fato precisam de ajuda (quando sofrem um ferimento mais sério).
  • O contato com a natureza – esses são os momentos em que elas podem interagir com o espaço natural. É brincando ao ar livre que as crianças vão reconhecer diferentes texturas (areia, barro, água, grama), experimentar e identificar horas do dia (manhã, tarde ou noite) por causa da luz, encontrar cheiros e sensações desconhecidas.
Os espaços devem ser verdes, com gramado, plantas e playground, para atrair as crianças (foto: G2G Outside)

Os espaços devem ser verdes, com gramado, plantas e playground, para atrair as crianças (foto: G2G Outside)

Qualquer lugar vale?

Não. Pátios e parques devem ser espaços verdes, com gramado e, de preferência árvores e plantas. O playground, com balanços e escorregador, é outro atrativo para os pequenos.

Por outro lado, áreas de chão batido, cimentadas, sem aparatos para brincar não são convidativas. Cientistas na Dinamarca analisaram o comportamento de meninos e meninas em diversos pátios e descobriram que, quando essa é a opção apresentada, as crianças tendem a ficar mais tempo paradas, o que contribui para o sedentarismo.

As brincadeiras antigas têm espaço garantido e trabalham habilidades como ritmo, agilidade e força (foto: Online Athens)

As brincadeiras antigas têm espaço garantido e trabalham habilidades como ritmo, agilidade e força (foto: Online Athens)

Resgate brincadeiras da sua infância

Ao levar sua classe para fora, por que não relembrar algumas de suas brincadeiras favoritas? A Revista Crescer listou algumas brincadeiras tradicionais e quais habilidades elas desenvolvem:

  • Amarelinha, peteca ou pião – combinam visão e coordenação motora, além de desenvolver força, destreza e senso de distância;
  • Corrida de saco, pular corda ou elástisco, pula-sela – estimulam a força física e o ritmo, já que os participantes precisam coordenar movimentos;
  • Morto-vivo, cabra-cega, esconde-esconde, pega-pega, caça ao tesouro – além da coordenação motora e agilidade, esses jogos promovem o pensamento estratégico e o trabalho em equipe;
  • Cabo de guerra – ensina a unir forças e trabalhar em conjunto por um objetivo;
  • Catavento, pipa ou pé-de-lata – ótimas opções para as crianças construírem os próprios brinquedos, usando a motricidade fina e a criatividade;
  • Bambolê, batata-quente, dança das cadeiras, queimada – combinam motricidade fina, agilidade e ritmo;
  • Roda, ciranda-cirandinha, escravos de Jó – boas alternativas não só para trabalhar a coletividade, como também para ampliar o conhecimento cultural das crianças, com músicas populares de diferentes épocas e regiões.

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Leia mais:

Revista Crescer – Brincar ao ar livre faz bem

Revista Crescer – Brincadeiras que atravessam gerações

Fundação Maria Cecília Souto Vidigal

Guia Infantil

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