O Papel do Corpo e do Movimento para a Aprendizagem

Quem já ouviu ou leu a seguinte frase: “Quem dança é mais feliz”??

Pois é a mais pura verdade. A dança tem uma grande contribuição no desenvolvimento cognitivo do ser humano, trazendo uma carga de sociabilidade e relacionamento enquanto pessoa no meio ambiente. Isso é muito importante quando aplicado como ferramenta da educação.

Agora vamos parar para pensar o papel da dança #NaEscola. 

Independente de ser uma instituição pública ou privada, sabe-se que muitas Escolas, contam com metodologias de ensino inovadoras, recursos e tecnologias acessíveis às crianças, projetos pedagógicos com bases internacionais de modelos produtivos em educação, enfim, a Escola evoluiu.

Mas, quando o assunto é o corpo e o movimento dentro da sala de aula, a modernidade volta à moda antiga.

É muito mais confortável para o professor quando as crianças estão imóveis e em silêncio, produzindo algo que ele supostamente acredita ser o conhecimento.

Ao falar de um corpo em movimento, automaticamente os professores de educação física são acionados. Afinal, lugar de bagunça é na quadra. Professores de educação física, não se zanguem, mas por muitos anos trabalhei com vocês e sei que a educação física é uma das disciplinas mais fantásticas e completas para o desenvolvimento da criança. Digo isso, sobre a bagunça, pois é o que muitos dos outros professores acham, por serem tomados por uma ignorância que não os permite ver o corpo como peça chave para o aprender. Por isso, nunca permita que uma criança fique sem as aulas de educação física “como um castigo” por ela não ter feito uma tarefa de matemática, por exemplo. A educação física é tão necessária quanto a matemática, e cada conflito deve ser resolvido dentro dos respectivos espaços; mas isso é outro assunto.

Voltando para o corpo, embora na educação infantil o movimento seja valorizado, há muitas práticas que colaboram com a importante crítica feita por Henri Wallon, psicólogo francês, ainda na transição do século XIX para o século XX: “Para a escola, a aprendizagem deve ser baseada naquilo que é imóvel. O movimento é visto como algo que atrapalha!”.

Wallon foi o primeiro teórico da Psicologia Genética a considerar não só o corpo da criança, mas também suas emoções como aspectos fundamentais para a aprendizagem. Sistematizou suas ideias em quatro elementos básicos que se comunicam entre si: a afetividade, o movimento, a inteligência e a formação do eu. A base teórica deste autor chama a atenção para olhar a criança como um todo, um ser que é completo e não dividido por partes.

criança dançando

Ainda para Wallon o MOVIMENTO é o primeiro sinal de vida psíquica na criança. Antes mesmo de falar, ela apropria-se do seu corpo para mostrar o que quer com gestos ou outros movimentos que ilustram o que ela esta pensando naquele momento. 

Veja se você se identifica com as falas abaixo:

-Professor: Não é para tirar o brinquedo da mão do seu amigo.

– Aluno: eu só queria ver.

-Professor: Eu não te pedi para fazer o desenho por ele, mas para mostrar o seu.

-Aluno: mas é isso que estou fazendo.

As crianças pequenas tem uma dificuldade muito grande de comunicar o que pensam de uma forma diferente do gesto. Para explicar este fenômeno, Wallon diz que o  ato mental se desenvolve a partir do ato motor, isto é, gestos. A criança não consegue ver o brinquedo com os olhos, é preciso tocar para ver. A criança não consegue mostrar o seu desenho para aquele amigo que ainda não sabe desenhar,  é preciso fazer por ele.

O toque, o gesto, os movimentos e todo o afeto presente nestas relações de aprendizagem devem ser permitidos e viabilizados dentro de sala de aula.

A escola ao manter a criança imobilizada numa carteira, o que  representa a disciplina,  limita fatores  importantes para o desenvolvimento completo da pessoa, como por exemplo, a impossibilidade da articulação entre a  emoção e a inteligência.

Algumas vezes, a escola limita certas posturas corporais e gestos dos alunos, pois encara o movimento como algo que atrapalha e que não pode estar presente dentro da sala de aula, já que aprender é baseado naquilo que é imóvel, segundo a crítica feita por Henri Wallon.

A escola apela para o uso exclusivo do cérebro e isso precisa ser erradicado de vez. Não podemos nos contentar com crianças de braços atados em si mesmas como se fossem contentores dos seus próprios corpos.

A inteligência não se desprende do movimento. Quando mexemos as mãos para falar em público, quando a criança levanta da carteira ou mesmo quando copia as coisas da lousa em pé, é uma forma de libertar o movimento para que se possa pensar e se comunicar bem.

Infelizmente, muitas crianças tem sido rotuladas inadequadamente como hiperativas ou com déficits de atenção por conta da falta de formação e conhecimento da importância do movimento para a aprendizagem.

O movimento tem um papel muito significativo para todas as fases do desenvolvimento humano, mas principalmente para as crianças em idade pré-escolar que é onde tudo começa.

Vamos afastar as carteiras e deixar o movimento entrar em nossas classes?

crianças dançando

Se conseguirmos proporcionar um bom começo, ou seja, inserir a criança num mundo de aprendizagens significativas, as experiências posteriores terão chances de sucesso também.

Falar de aprendizagem significativa é falar de um aprender que foi registrado pelo corpo.  O corpo é o gravador das nossas experiências com o mundo, ele acumula estas experiências e é capaz de revivê-las a qualquer momento dependendo das situações que for exposto.

O corpo tem um papel fundamental para aprender, pois do princípio ao fim a aprendizagem passa pelo corpo. É o tal gravador que já falamos. Entretanto, vale ressaltar que não é importante apenas que o seu aluno faça bem as letras ou os números, mas que sinta prazer nas respostas que dá, pois isso é corporizar o conhecimento.

Existem muitas formas de possibilitar isso. A psicomotricidade, a dança, a música e as brincadeiras em si, são excelentes recursos adorados pelos pequenos.  A dança por exemplo é a livre expressão da criança; é a oportunidade de encontrar em si mesma as respostas para a construção de um ser humano mais seguro, autoconfiante e com uma excelente imagem de si mesmo. Colabora com a melhoria da criatividade, imaginação, autonomia e socialização.

Quando se estuda as competências do professor para ensinar no século XXI, Pilippe Perrenoud, encontramos a necessidade de serem criativos, se comunicarem melhor, saber ouvir, saber usar novas tecnologias, ter um pensamento crítico, ser colaborativo e etc. Mas, é impossível colocar estes princípios em prática quando se desconsidera o valor do corpo em sala de aula.

Vamos promover o movimento em sala? Preparei uma atividade bem divertida para você e seus alunos e deixei no Baú de Atividades Eduqa.me.

Olha só: 

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Sugestão de leitura:

  • Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. Isabel Galvão. Ed. Vozes, 1995.

A importância do Movimento no desenvolvimento psicológico da criança in Psicologia e educação da infância – antologia. Henri Wallon. Ed. Estampa.

  • DANTAS, Heloysa. A infância da razão. Uma introdução à psicologia da inteligência de Henri Wallon. São Paulo, Manole, 1990
  • GALVÃO, Izabel. Uma reflexão sobre o pensamento pedagógico de Henri Wallon. In: Cadernos Idéias, construtivismo em revista. São Paulo, F.D.E., 1993.WALLON, Henri. Psicologia. Maria José Soraia Weber e Jaqueline Nadel Brulfert (org.). São Paulo, Ática, 1986.
  • Philippe Perrenoud e Monica Gather Thurler. As competÊncias para ensinar no século XXI: formação dos professores e o desafio da avaliação. Editora Penso, 2002.

Texto: Luciana Fernandes Duque para a Eduqa.me. Luciana é doutoranda em Educação Especial – Faculdade de Motricidade Humana pela Universidade de Lisboa – Portugal, Mestre em Educação – Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Psicopedagoga Clínica e Pedagoga com vasta experiência Educação Inclusiva. É autora de dois livros, um sobre inclusão escolar e outro sobre relação professor aluno.

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