“Eles saem daqui com a sensação de que podem conquistar tudo, nada será muito difícil”.

(Andressa Lutiano – Wish School)

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Estudar mitologia foi uma iniciativa que partiu totalmente das crianças – e o projeto durou três meses! (foto: Wish School)

Uma criança levou para a escola um jogo de tabuleiro para brincar com os colegas. O jogo envolvia deuses e figuras mitológicas, o que chamou a atenção da turma – e deu início a um projeto de três meses, um passeio que foi desde a história da Grécia e Roma antigas até a leitura da série de livros infanto-juvenis de sucesso, Percy Jackson. A liberdade faz parte da rotina do aprendizado na Wish School, uma escola bilíngue de inspiração construtivista, em São Paulo. Os projetos são sugeridos, escolhidos e desenvolvidos pelos alunos desde a Educação Infantil. Conversamos com a diretora, Andressa Lutiano, sobre a dúvida que não quer calar na cabeça dos educadores: aonde deve ser traçado o limite da autonomia das crianças no ensino?

Apesar de o discurso construtivista ter se popularizado no Brasil desde a década de 90, a prática ainda está longe da teoria. Em 2009, uma pesquisa realizada em 23 países pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) mostrou que a maioria esmagadora dos professores concorda com afirmações de cunho construtivista – como, por exemplo, “estudantes aprendem melhor quando encontram sozinhos a solução para problemas”. Como, porém, isso se reflete em sala de aula?

“A sensação que temos é de que esse discurso já virou senso comum”, provoca Andressa, “mas que, chegando mais perto, percebe-se que a tal autonomia não vai além de a criança escolher pintar de verde ou azul. Ela continua apenas seguindo o que foi programado”. Na Wish School, as crianças têm um papel ativo sobre sua rotina escolar – ainda que isso, por vezes, os afaste do currículo pré-estabelecido, como foi o caso do projeto sobre mitologia.

Nestes casos, como ficam os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e o leque de disciplinas definido pelo Ministério da Educação? “Os PCNs são como enormes guarda-chuvas”, explica a diretora, “apesar de algumas escolas, que trabalham com apostilas e livros didáticos, dividi-los em uma lista de conteúdos específicos, eles não têm essa rigidez. São temas bem amplos, que podem ser abordados de diversas formas”. O tópico “Relações com animais e a natureza”, por exemplo, pode ser tanto trabalhado em uma aula de ciências expositiva quanto com uma atividade de exploração ao ar livre ou com pesquisas e leituras variadas.

Outra ressalva é que os conteúdos indicados pelo Ministério não são considerados anualmente – qualquer tema pertencente à Educação Fundamental I pode ser inserido em qualquer momento entre o 1º e o 5º ano. “Os professores entram em sala com ideias para debates, notícias atuais ou sugestões que apresentam à classe. A partir daí, eles vão mapear: para onde o olhar desses meninos foi?”, conta Andressa. Se o interesse da classe for além, não há problema até mesmo em ultrapassar esses conceitos, trazendo e explicando informações extras.

Os alunos contam com recursos para auxiliá-los no aprendizado: tecnologia, pesquisa, ambientes diversos... E o professor, um recurso vivo sempre à disposição (foto: Wish School)

Os alunos contam com recursos para auxiliá-los no aprendizado: tecnologia, pesquisa, ambientes diversos… E o professor, um recurso vivo sempre à disposição (foto: Wish School)

Durante os projetos, as turmas contam com o apoio de toda a estrutura da escola: espaços ao ar livre, computadores, biblioteca – e, é claro, o professor. A diretora conta que, após muita discussão, hoje a Wish School define o educador como mais um recurso: “Um par mais experiente, que pode ajudá-los a encontrar caminhos mais facilmente, mas um recurso como todos os outros. As crianças sempre podem optar por trabalhar sozinhas, tentar encontrar o conteúdo por conta própria”.

Isso não acarreta em uma avalanche de projetos individuais e interesses isolados? Afinal, cada aluno vai procurar o assunto que mais gosta, não é? De acordo com Andressa, houve o medo dessa possibilidade; contudo, não foi o observado. Usualmente, a classe abraça um grande tema, geral, e a diversidade se dá dentro dos grupos, pois cada integrante traz um olhar divergente. Em um projeto de comunicação executado este ano, o que começou como uma pesquisa sobre Steve Jobs e Mark Zuckerberg, gênios da tecnologia, viajou até os primórdios da escrita e a origem dos livros.

Projetos multietários: Crianças mais velhas desenvolvem suas habilidades ao ajudar as menores, criando um ambiente de cooperação (foto: Wish School)

Projetos multietários: Crianças mais velhas desenvolvem suas habilidades ao ajudar as menores, criando um ambiente de cooperação (foto: Wish School)

A interação entre diferentes faixas etárias é outro pilar da educação na Wish School – e elas podem ser casuais (quando as turmas encontram-se sem planejamento, brincando ou estudando no mesmo espaço), além de intencionais (nas atividades propostas pelos docentes). No decorrer do ano letivo, classes de idades distintas se unem no Buddy Project. Os pares variam: podem ser crianças de 7 e 5 anos, como, em outros momentos, a dupla pode ser formada por uma de 8 e outra de 4. Segundo Andressa, “nós vemos muito o benefício para a criança mais nova ao ter um maior como modelo. Isso não deixa de ser verdade, mas a interação com outras faixas etárias também traz várias vantagens aos mais velhos”. Dentre elas, está a redução de incidências de bullying. Isso ocorre por tirar os alunos do clima competitivo gerado por seus pares. Dentre os colegas, uma criança considera todos como possuindo as mesmas competências e inteligências que ela detém, e se coloca em constante competição, querendo superá-las.

Em um relacionamento com as menores, essa premissa morre. Ela sabe que, se tem 8 anos, obviamente irá vencer uma criança de 4 em quase tudo. A partir desse entendimento, a mais velha passa a agir de forma cooperativa e cuidadosa – por exemplo, correndo mais devagar no pega-pega, para que os amigos mais jovens consigam participar. “Além disso, o conhecimento é fixado sempre que eles precisam explicar um assunto ou ensinar algo. É muito mais fácil fazer, automaticamente, do que pensar no ‘como’ é feito. Isso a faz refletir e aprender melhor”, explica Andressa.

Aluna conta quais foram as habilidades que ela aprendeu e utilizou durante um projeto (foto: Wish School)

Aluna conta quais foram as habilidades que ela aprendeu e utilizou durante um projeto (foto: Wish School)

Ainda assim, um grande número de escolas não consegue seguir esse modelo à risca (seja por empecilhos financeiros, curriculares ou de estrutura). Entretanto, Andressa garante que qualquer passo na direção da liberdade é um avanço. “Existem níveis de autonomia que podem ser implementados aos poucos. Se a turma não pode eleger o tema da aula, quem sabe ela pode sugerir a forma de trabalhar ou apresentar?”, questiona. Ou seja: engaje os alunos e torne a lição o mais participativa possível – e, sempre que perguntar, lembre-se de realmente tentar inserir as ideias recebidas em seu planejamento.

A possibilidade de reflexão e escolha desenvolve o pensamento crítico e a independência das crianças. Elas não são mais passivas ao receber informações, buscam os porquês de qualquer ordem ou definição. “Você não consegue botar um projeto goela abaixo nessas crianças”, diz Andressa, com orgulho. E ela afirma: “eles saem daqui com a sensação de que podem conquistar tudo, nada será muito difícil”.

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