Imagine só: oito crianças entram em uma sala de artes recheada de todo tipo de material artístico. Elas escolhem seus lugares nas mesas designadas e, felizes, ajudam uma à outra a vestir o avental. Não encostam em nada. Um aluno repara em um espelho sobre a mesa e deduz – “ah, vamos fazer autorretratos, hoje?”. Então, cada um se senta e trabalha com canetas marca texto e tinta acrílica sem sujar as roupas.

É o sonho de todo professor, certo?

Bem, na verdade, eu presenciei exatamente essa cena alguns meses atrás. Contudo, talvez você não acredite quanto contar aonde ela aconteceu. Não foi em uma classe de Ensino Médio, nem mesmo de Fundamental. A aula ocorreu em uma pré-escola.

Dizer que me senti surpresa é um eufemismo. Fiquei boquiaberta. Chocada!

Como você com certeza pode deduzir, esta não era uma pré-escola convencional ou uma aula de artes comum. Estava observando um programa chamado Preschool of Arts, localizado em Madison, Wisconsin (Estados Unidos) e inspirado na metodologia Reggio Emilia. O que aprendi pode ajudar qualquer professor a atingir um pouco mais de harmonia em sua sala de artes – por isso, gostaria de dividir algumas observações e lições práticas que podem ser usadas no ensino de bebês a adolescentes.

A escola: espaço de criatividade e empoderamento

Reserve um espaço para conversas e atividades em equipe (foto: The Art of Ed)

Reserve um espaço para conversas e atividades em equipe (foto: The Art of Ed)

Caso não esteja familiarizado com o método Reggio de educação, eu indico que você pesquise mais a respeito. Em suma, as crianças são vistas como participantes capazes em seu próprio aprendizado. Elas são encorajadas a se expressar através de diversas linguagens, incluindo a arte, ao longo do dia.

Embora apenas escolas italianas possam ser escolas Reggio, fica claro que outras instituições se inspiram em seus ensinamentos. Desde cartazes e placas criados pelos estudantes até quadros e esculturas adornando as paredes, toda essa sala de aula parece gritar: “crianças e criatividade são valorizadas aqui!”.

O estúdio de arte e o “terceiro professor”

As crianças têm muitas oportunidades para criar em suas salas de aula regulares, entretanto, o estúdio de artes baseado no Reggio Emilia é um espaço especial que elas visitam uma vez por semana. Em uma escola Reggio, a organização da sala de aula é conhecida como “o terceiro professor”. O termo significa que os materiais e objetos dispostos lá estão organizados intencionalmente. Com frequência, espelhos são incorporados ao local para refletir a luz e estantes de livros são colocadas perto das portas, criando um ambiente confortável.

Espelhos no teto e nas paredes refletem a luz pela sala (foto: The Art of Ed)

Espelhos no teto e nas paredes refletem a luz pela sala (foto: The Art of Ed)

Outras provocações são inseridas a cada dia para estimular a exploração: durante a minha experiência lá, assisti três turmas diferentes usarem o espaço, cada uma com arranjos próprios para trabalhar. Uma delas recebeu os itens abaixo:

Um objeto encoberto estimula a curiosidade e imaginação das crianças (foto: The Art of Ed)

Um objeto encoberto estimula a curiosidade e imaginação das crianças (foto: The Art of Ed)

Achei interessante o fato de um dos objetos sobre a mesa estar coberto. Certamente, as crianças ficaram curiosas para descobrir o que havia embaixo! Repare também nas tintas coloridas prontas para serem usadas.

Adapte sua sala:

  • Pendure um espelho para refletir a luz (ou, como sugeriu uma das crianças, para produzir autorretratos!);
  • Prepare pelo menos um ambiente para trabalhos em equipe;
  • Arrume materiais bonitos, atrativos;
  • Crie uma estante para livros ou desenhos;
  • Pinte uma das paredes de uma cor tranquila.

Materiais: inspiradores, permanentes e de qualidade

Conforme mencionei, um componente chave da metodologia Reggio é a noção de que as crianças são capazes.  Enquanto, para mim, ver uma criança de três anos usar tinta acrílica foi motivo de choque, para a professora, era completamente normal. A turma aprende qual a maneira correta de se manusear cada utensílio e começa a praticar com eles quando todos ainda são muito novos.

Perguntei à Kristin Sobol, uma das especialistas em arte da escola, se algum pai já havia reclamado por causa de roupas manchadas ou estragadas. Ela pensou por alguns segundos e respondeu: “Não. Isso nunca aconteceu comigo!”. Incrível, não?

Como o método foca na construção de uma comunidade, a família é uma parte essencial na educação das crianças. Portanto, os professores preparam os pais para entender essas experiências artísticas como momentos valiosos – assim, a maioria manda uma troca de roupas para os filhos nos dias de estúdio. Tudo depende da comunicação.

Kristin também me disse que, além dos marca textos e da tinta acrílica, os alunos dela geralmente aproveitam outros materiais de alta qualidade como lápis de cor da marca Prismacolor (uma marca de materiais de pintura profissionais). A ideia é que materiais de alta qualidade são mais fáceis de ser utilizados. Se você parar para pensar no assunto, é verdade! Você não preferiria usar tintas cremosas e pincéis macios do que um que arranha o papel ou produz marcas falhas?

Materiais tradicionais misturados a elementos da natureza dão origem a novas descobertas e experiências (foto: The Art of Ed)

Materiais tradicionais misturados a elementos da natureza dão origem a novas descobertas e experiências (foto: The Art of Ed)

Outro aspecto importante é incorporar a natureza ao aprendizado. Esse conceito é levado para a sala de artes, onde há uma variedade de elementos naturais com os quais o grupo pode trabalhar. Perguntei como a professora fazia para que as crianças deixassem os materiais em paz na hora da atividade. “Bem, eles são parte constante do ambiente, então, ninguém presta muita atenção”. Genial.

Este é um exemplo de como a natureza é introduzida à sala de aula. Recentemente, alunos de dois anos criaram seus primeiros autorretratos. Primeiro, eles praticaram desenhar um círculo. Então, adicionaram pedrinhas para representar os olhos. Aqueles prontos para avançar em seus projetos adicionaram ainda cabelos, narizes e bocas.

Adapte sua sala:

  • Introduza materiais permanentes às crianças;
  • Misture elementos naturais com outros, tradicionais, na sala de artes;
  • Promova suas atividades para que a família entenda (e aprove) a bagunça;
  • Invista em pelo menos um material de alta qualidade.
Exemplo de autorretrato feito por crianças de dois anos, utilizando canetinhas e pedras (foto: The Art of Ed)

Exemplo de autorretrato feito por crianças de dois anos, utilizando canetinhas e pedras (foto: The Art of Ed)

O processo: documentar e exibir

A documentação é uma parte imprescindível do método Reggio Emilia. Ao longo da aula de artes, pude observar Kristin tirando fotos e fazendo anotações. Diariamente, elas são compiladas e enviadas aos pais. Imagens e roteiros de discussão também são expostos nos corredores e espaços coletivos – em alturas diferentes para que crianças e adultos possam apreciar o trabalho dos colegas.

Para complementar, as obras são escolhidas para mostrar a evolução. De acordo com a professora, “é comum que as crianças queiram destruir ou encobrir partes da atividade que fizeram no começo do projeto”. Professores Reggio devem pensar sobre quais materiais vão prevenir essa tendência para que seja possível acompanhar o progresso de cada criança. Combinar materiais opacos e transparentes, por exemplo, pode surtir efeito. Que tal alternar tinta óleo com canetinhas coloridas e aquarela, permitindo que professores e estudantes observem o desenvolvimento da atividade?

Outro truque de Kristin é usar transparências sobre o desenho original. Dessa forma, as crianças podem pintar sobre a imagem e, quando a tinta secar, retirar a segunda camada para comparar com a primeira tentativa. Se há caixas de antigas transparências juntando poeira na sua escola, experimente colocá-las em uso nesse projeto.

Trabalhar com transparências permite analisar as várias etapas do projeto e o desenvolvimento da criança (foto: The Art of Ed)

Trabalhar com transparências permite analisar as várias etapas do projeto e o desenvolvimento da criança (foto: The Art of Ed)

Adapte sua sala:

  • Use materiais opacos e transparentes em uma mesma atividade;
  • Faça perguntas às crianças e grave suas respostas;
  • Anote os comentários dos artistas ao lado de suas produções;
  • Pendure obras de arte das crianças dentro da sala de aula;
  • Crie uma página no Facebook, Instagram ou Twitter para a comunidade escolar.

Eu agradeço muito a oportunidade de observar um dia no estúdio de artes – consegui entender como pequenas mudanças em uma escola tradicional podem trazer imensos benefícios.

Agora, tente escolher uma dica desse artigo e colocá-la em prática com sua classe e aproveite para fazer isso coma  Eduqa.me!

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Esse artigo é uma tradução do texto “A surprising in depth look at the Reggio Approach”, do The Art of Ed. Para ler o original, clique aqui.


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