“A ideia é: nós podemos falar sobre cidadania, mas, se fizermos com que as pessoas ajam e experimentem dentro da cidade, o resultado final é muito mais poderoso”.

(Adriana Karam Koleski – Grupo Opet)

Há mais na escola do que apostilas de matemática e língua portuguesa – um dos principais ambientes de socialização da infância (posto que costuma dividir com a família), ela é acima de tudo um espaço para exercitar a vida em comunidade. Isso ocorre através dos diálogos entre crianças e adultos, crianças e crianças, atividades em grupo ou brincadeiras coletivas. Acontece naturalmente, permeando as outras disciplinas.

Alguns projetos, entretanto, elevam essa prática a um outro patamar. São escolas que pregam o exercício da cidadania desde a educação infantil, inserindo até mesmo dinâmicas políticas e econômicas na rotina das crianças. É o que ensina o Grupo Educacional Opet, de Curitiba (PR), que mantém uma cidade mirim integrada ao prédio da educação infantil e fundamental I. A experiência começou em 1970 no colégio Lins de Vasconcellos, que depois foi adquirido pelo grupo.

“Como acontece com qualquer projeto, a cidade mirim também passou por alterações ao longo dos anos”, conta a superintendente educacional Adriana Karam Koleski.

Segundo ela, houve uma época em que a cidade era organizada por um grupo de educadores exclusivo, sem contato com as crianças em sala de aula. Hoje, são os professores regulares que guiam as atividades.

“Nós percebemos que a cidade mirim é um elemento muito poderoso e precisa estar dentro da escola. Ao invés de ser trabalhada separadamente, a cidadania pode e deve estar presente em todas as matérias. Com isso, a experiência fica mais rica”.

Crianças até o 5º ano participam de atividades políticas e de economia sustentável na Opet (fotos: divulgação)

Crianças até o 5º ano participam de atividades políticas e de economia sustentável na Opet (fotos: divulgação)

A cidade Mirim

Dentro da cidade, alunos participam dos pólos político, de serviços, ambiental e cultural. No âmbito político, por exemplo, eles podem se candidatar a vereadores ou, quando chegam ao 5º ano, ao cargo de prefeito. Os concorrentes elaboram propostas, apresentam-nas às turmas e todos votam em urnas eletrônicas, disponibilizadas pelo TRE. No ano seguinte, os professores acompanham o cumprimento das promessas durante o mandato.

Adriana explica que os adultos devem interferir o mínimo possível: “É um acompanhamento. Uma proposta que sempre surge é a de aumentar o tempo de recreio. Quando os partidos sugerem isso, nós já chamamos as crianças e explicamos que, se eles fizerem essa promessa aos colegas, não vão conseguir cumpri-la”.

Usualmente, as campanhas sugerem novos espaços ou a alteração de algum espaço da escola, a organização de um campeonato de esportes ou uma parceria com alguma ONG com a qual elas tenham familiaridade. Não parece muito grandioso? “Nós pensamos nisso, mas, para ficar mais abrangente, seria necessária muita interferência dos adultos na hora de concretizar as ações. E o objetivo é que as crianças façam tudo por elas mesmas”.

Inspiração

O Colégio Israelita de Porto Alegre (RS) tem uma organização política semelhante. Lá, a Ir Ktaná – “cidade pequena”, em hebraico – ainda é jovem: foi inaugurada em 2009.

O complexo conta com, entre outras coisas, um pequeno banco, uma emissora de rádio e uma sinagoga. Marina Pirillo Tavares, coordenadora de comunicação da escola, diz que a Ir Ktaná foi pensada com base em quatro eixos. “O objetivo é implantar uma educação voltada à sustentabilidade, ao empreendedorismo, à cidadania e à valorização da identidade cultural judaica”.

Na Ir Ktaná, alunos votam em prefeito, secretários e vereadores (foto: divulgação)

Na Ir Ktaná, alunos votam em prefeito, secretários e vereadores (foto: divulgação)

O Espaço

Ambas as cidades possuem espaços físicos diferenciados – ruas com sinais de trânsito, prédios baixos adaptados ao público infantil e, em geral, réplicas de instituições públicas. “A gente tem uma estrutura física muito rica, então, às vezes, as pessoas se assustam, pensando que precisam disso para ter uma cidade mirim”, admite Adriana. “Mas a riqueza do projeto não é a casa, não é o espaço. É claro que ele é enriquecido pelo espaço, mas a riqueza do projeto está nas ações”.

O Tempo

Desde a entrada na educação infantil da Opet, as crianças habitam a cidade mirim – a princípio, apenas em atividades guiadas pelos professores e, a partir do Infantil 5 (com 5 anos de idade), também como eleitoras. Adriana explica que “esse já é um primeiro ato político de cidadania porque, de fato, nem todas as crianças vão estar na liderança. Mas é importante que elas escolham uma liderança que as represente”.

Diariamente, a cidade fica aberta durante o recreio, momento em que estudantes de várias idades podem conviver. Isso também ocorre em atividades especiais, que envolvam todas as turmas – rotineiramente, no entanto, cada classe tem um horário marcado, semanalmente, para realizar sua experiência.

Já na Ir Ktaná, a vivência se prolonga até o Ensino Médio. Para Marina, esse foi um fato desafiador: “Nós tivemos que criar espaços que contemplassem as necessidades e interesses de estudantes de 1 a 17 anos de idade”. A frequência das atividades dependem dos professores de sala de aula, embora todos devam passar por uma atividade lá dentro ao menos uma vez por mês. Paralelamente, os alunos podem se inscrever em oficinas dos núcleos de Ciência & Tecnologia, Cultura e Erudição, Educacional de Empreendedores, Educação Judaica e Política e Cidadania.

Políticos da cidade mirim recebem certificados na Câmara dos Vereadores de Porto Alegre (foto: divulgação)

Políticos da cidade mirim recebem certificados na Câmara dos Vereadores de Porto Alegre (foto: divulgação)

Os professores

As duas escolas realizam capacitações específicas para os professores para que eles saibam como aproveitar as possibilidades das mini cidades. Na Opet, ainda são ofertados treinamentos e experiências na cidade mirim para outras escolas de Curitiba.

Projetos

Um dos projetos de destaque da Ir Ktaná é a publicação anual de um livro redigido pelos alunos, que, em seguida, é vendido para família, amigos e comunidade. Em 2014, a turma concordou em dar um destino positivo ao dinheiro das vendas: todo o lucro gerado foi doado para ajudar na construção de novos leitos da UTI Pediátrica do Hospital Santo Antônio.

Enquanto isso, crianças da Opet propuseram e realizaram um feira de orgânicos, chamada Armazém da Família, inclusive com alimentos da própria horta. Elas também participam de atividades de educação financeira (ambas as escolas implantaram moedas próprias dentro das cidades) em que as crianças conversam com representantes de empresas sustentáveis e organizam feiras de troca de brinquedos.

“O nosso mote é ‘o que se aprende hoje transforma o amanhã'”, diz Adriana. “Ensinamos que não adianta só você saber. Você precisa usar o conhecimento em benefício da sociedade e da sua vida“.

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