“A escola não é mais a única transmissora de conteúdo – então, ela precisa se redesenhar. Essa é a maior ruptura com o modelo de educação tradicional”.

(Tathyana Gouvêa – pesquisadora USP)

No Projeto Gente, aulas digitais são realizadas com material em vídeo, jogos e testes (foto: reprodução).

No Projeto Gente, aulas digitais são realizadas com material em vídeo, jogos e testes (foto: reprodução).

Tecnologia, Democracia e Sustentabilidade

O século XXI foi marcado pela experimentação no campo educacional – é o que diz a doutoranda Tathyana Gouvêa (USP), mestra em educação pela PUC-SP. No último ano, ela visitou escolas no Brasil, em Portugal, na Espanha e na Inglaterra, acompanhando a rotina de projetos que se propõem a questionar o ensino convencional.

Durante a pesquisa, Tathyana identificou três tendências pedagógicas que vem conquistando adeptos: a tecnológica, a democrática e a que ela classificou como holística-sustentável (das três, considerada a mais alternativa, que prega a formação integral do indivíduo e uma nova maneira de se relacionar com o meio ambiente). Ela fala à Eduqa.me sobre sua experiência, vantagens e desafios da nova educação e os rumos que o Brasil parece seguir.

Como essas três propostas de educação se diferenciam?

Tathyana: A primeira delas, e a mais comum no Brasil, é a tecnológica. A tecnologia pode entrar como um complemento do que já é feito, mas também pode ser uma ferramenta que redesenha a escola – é o caso do projeto Gente, no Rio de Janeiro, que trabalha com turmas heterogêneas, de várias faixas etárias, utilizando  computadores, tablets e smartphones tanto entre estudantes quanto docentes.

Outra linha, que se mostra mais forte em outros países, é a de escolas democráticas. Nesses lugares, o aluno se torna cada vez mais participante das decisões da instituição e também da sua trajetória curricular. Não é mais a criança que se molda ao currículo, mas o currículo que se molda à criança: ela aprende a administrar seu próprio tempo de aprendizagem e se apropria do conhecimento de acordo com os seus interesses.

 Existe ainda uma terceira tendência – a holística-sustentável, cuja meta é redefinir o papel do ser humano na sociedade, suas formas de produzir e consumir. São grupos com uma visão do homem como agente integrado à natureza e que empregam, por exemplo, meditação e vegetarianismo.

Você diz que a tendência tecnológica é a que mais ganha força no Brasil. Qual o motivo desse destaque?

T: Se deve ao tamanho do Brasil, por ser um país continental. Aqui, qualquer escola de bairro tem pelo menos 300 alunos, algo inimaginável na Europa. Temos escolas de grandes proporções, com edifícios enormes e muitas crianças. Também temos a necessidade de ensino à distância, principalmente como alternativa para jovens adultos. A tecnologia possibilita esse alcance.

Na Escola da Ponte, alunos de diferentes idades trabalham juntos em temas de sua escolha (foto: reprodução).

Na Escola da Ponte, alunos de diferentes idades trabalham juntos em temas de sua escolha (foto: reprodução).

A liberdade das crianças é uma marca dessas novas tendências de ensino. Entretanto, como definir o quanto o aprendizado deve ficar sob responsabilidade do aluno e o quanto deve ser dirigido pelo professor? Segundo Tathyana, isso varia de escola para escola. É possível encontrar práticas que são zero diretivistas – são as mais radicais, que acreditam que o aluno deve aprender apenas pela experiência de vida, como aconteceu por vários séculos (e ainda ocorre até hoje em algumas comunidades e tribos) antes de as instituições de ensino serem estabelecidas.

Outras trabalham com um currículo mínimo, que visa orientar o professor – é o caso da Escola da Ponte, em Portugal, uma das visitadas pela pesquisadora. Nesse caso, o currículo nacional serve como um acordo entre o professor e a escola: o aluno não fica sabendo em que etapa está do aprendizado, mas é ele quem planeja seus estudos e determina o próprio ritmo.

Cabe ao educador estimulá-lo (através de atividades, experimentos, oficinas ou excursões) para que ele avance em todas as áreas de conhecimento, cumprindo o que é determinado – porém, Tathyana ressalva que, apesar dessas linhas de guia, é normal que as crianças aprendam mais rapidamente e absorvam conteúdo mais avançado em assuntos que sejam de seu interesse.

Crianças da Escola da Ponte participam de assembleias e realizam votações para solucionar problemas - também apontados por elas (foto: reprodução).

Crianças da Escola da Ponte participam de assembleias e realizam votações para solucionar problemas – também apontados por elas (foto: reprodução).

Em todos esses cenários, o papel do professor também se transforma. Se ele deixa de ser o transmissor de conhecimento, qual passa a ser a sua função?

T: Sim, o professor é destituído daquela posição de detentor de todo o conhecimento, mas ele assume um papel que eu considero ainda mais difícil: agora, ele precisa observar um ser humano em sua integridade. Precisa ter uma visão crítica, trazer debates e saber conduzir a turma. Vai trabalhar com a expressão dos estudantes.

Ou seja, se, por um lado, ele começa a ter apoio em relação ao conteúdo, por outro, ele precisa dedicar sua atenção a outras atividades. O professor não se torna menos, ele se torna mais.

Já é possível ver os resultados dessa formação alternativa?

T: No Brasil, nós ainda não temos uma geração formada por essas escolas – afinal, a Ditadura Militar fechou instituições que não seguissem o modelo tradicional. Então, nosso primeiro ciclo foi interrompido. Em outros países, o que se observa é que a incidência de artistas e intelectuais é maior que a de uma escola tradicional, onde as crianças são moldadas. Nessas escolas, quem tem potencial para se expressar encontra nelas um local para ampliar sua voz, enquanto na escola tradicional, pelo contrário, isso é diminuído.

Nas reuniões de ex-alunos da Summerhill (a mais antiga escola democrática do mundo, na Inglaterra, também visitada por Tathyana) vemos engenheiros, arquitetos, políticos, dançarinos… É um público muito diversificado, mas todos com uma característica marcante: a de se posicionar na sociedade, de não se minimizar diante do grupo.

Sala de aula da escola Summerhill, pioneira na educação democrática, que aceita alunos a partir dos 5 anos de idade (foto: reprodução).

Sala de aula da escola Summerhill, pioneira na educação democrática, que aceita alunos a partir dos 5 anos de idade (foto: reprodução).

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Tathyana Gouvêa é mestra em educação, já trabalhou como gestora de projetos sociais e foi professora do Instituto Singularidades, em São Paulo. Para saber mais sobre as escolas visitadas ou sobre a pesquisa que ela realiza em seu doutorado na USP, entre em contato pelo e-mail tathyana.gouvea@gmail.com.

 


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