“Passarinho que vive em gaiola, se for solto, morre. Mas passarinho que vive livre consegue se adaptar em qualquer lugar“.

(Anderson Lima – idealizador do Pedal)

Gravações no Projeto Âncora, em que alunos assumem o posto de repórter, cinegrafista ou produtor (foto: divulgação)

Gravações no Projeto Âncora, em que alunos assumem o posto de repórter, cinegrafista ou produtor (foto: divulgação)

Toda semana, alunos de três instituições de ensino no estado de São Paulo recebem uma oficina de produção midiática. A proposta coloca as crianças, desde o princípio, como responsáveis pelo material: cabe a elas definir o conceito, elaborar o roteiro, manusear os equipamentos de filmagem – e, é claro, assistir o conteúdo gerado.

“Quando um adulto vai ao cinema, ele pode escolher entre uma ficção, um drama, uma comédia romântica”, provoca Anderson Lima, idealizador do projeto, “Mas só existe farsa para crianças na televisão brasileira. Por que elas não têm espaço para contar suas histórias?”. Foi a partir dessa indagação que surgiu o Pedal, um canal em que tudo é feito para crianças e por crianças.

O Pedal começou a funcionar há dois anos, no projeto Âncora, uma ONG de assistência social com a gestão do educador José Pacheco. O vídeo foi escolhido por ser um formato inclusivo e portável – “qualquer criança, de qualquer idade, consegue assistir um filme de alguns minutos e entender o contexto, a mensagem, o tom de voz”, argumenta Anderson. Há, ainda, mais meios de comunicação disponíveis e, portanto, mais alcance, já que as produções poderiam ser vistas tanto na TV quanto na internet.

Havia, porém, uma série de ressalvas que impedia que outras escolas se apropriassem das práticas. “Nós ouvíamos de muita gente que a oficina só funcionava ‘porque vocês têm o Pacheco’, ‘porque não existe tanta cobrança dos pais’, e que ‘não seria possível na escola particular'”, conta Anderson. Não deu outra: junto com a produtora Samara Monteiro, ele logo decidiu levar o Pedal para uma escola pública e, outra, privada.

A seleção de temas é feita pelas crianças, que devem debater assuntos e expressar suas opiniões para, então, criar um roteiro (foto: divulgação)

A seleção de temas é feita pelas crianças, que devem debater assuntos e expressar suas opiniões para, então, criar um roteiro (foto: divulgação)

Atualmente, o projeto acontece em três ambientes diferentes – além do Âncora (Cotia), na Escola Oficina Pindorama (Vargem Grande Paulista), e na EMEF Campos Salles (São Paulo) – e apresenta sucesso em todas as frentes. As atividades são realizadas uma vez por semana, durante um período, com alunos a partir dos oito anos de idade. Qualquer um que tenha interesse pode se inscrever para participar e a própria turma se organiza, revezando funções.

A programação criada pelos estudantes vai desde entrevistas sobre pesquisas escolares até reportagens sobre acontecimentos ou atividades interessantes dentro da escola. O quadro jornalístico foi chamado de “O que é que tem?”. Anderson compartilha a escolha do nome: “Sempre que falamos sobre um método de educação inovador, começamos a dizer que ‘não tem divisão por classes, não tem prova, não tem uniforme’… É tanto ‘não’ que, quando chegamos ao fim, resta a pergunta – ‘mas o que é que tem?'”.

Outro programa é o Des-cionário, inspirado em uma iniciativa colombiana. Em 1999, o ex-professor Javier Naranjo reuniu em um livro as definições das crianças para palavras do dia-a-dia, como “avó”, “água” ou “guerra” (leia mais sobre o livro Casa nas estrelas: o universo contado pelas crianças). Anderson conhecia o material e entrou em contato com o colombiano para utilizar uma proposta semelhante no Pedal. Diante da câmera, as crianças elaboram significados para as palavras, originando um dicionário muito pessoal – e bastante poético.

Uma das citações trazidas pelos alunos no quadro Des-Cionário, parte do canal Pedal (foto: divulgação)

Uma das citações trazidas pelos alunos no quadro Des-Cionário, parte do canal Pedal (foto: divulgação)

Essa não é a primeira vez que Anderson se aventura ao documentar a educação. Professor de teatro e filosofia, ele trouxe, por vinte anos, os questionamentos e as vivências infantis para a sala de aula. “Nunca cheguei com um molde pronto, só alguns tópicos para iniciar um debate”. As perguntas eram simples, mas rendiam longas discussões: iam desde a identificação de sentimentos (qual foi o momento em que você ficou mais feliz, ou mais triste, por exemplo) até o estímulo à criatividade e imaginação (por que o cravo brigou com a rosa? Quem é a Dona Chica?). As únicas regras que guiavam o debate eram não interromper o colega e não responder “porque sim” ou “porque não”. Quem não soubesse poderia inventar ou dar sua opinião, mas nunca se omitir. Nos primeiros dez minutos de aula, normalmente, o tema da produção acabava sendo definido pela classe.

“É muito comum que as crianças comecem replicando diálogos que elas observam entre os adultos”, comenta Anderson, “mas, aos poucos, elas se libertam desses modelos e abrem suas próprias narrativas. É um resgate da infância”. Isso não significa que as temáticas trabalhadas sejam necessariamente infantis. Dentro da sala de aula, as conversas se esticavam até as manifestações políticas ou questões de gênero. Houve reclamação dos pais? Algumas, confirma Anderson, mas serviram como aprendizado para entender de quais formas abordar os alunos.

Segundo ele, “a educação não está muito preocupada em fazer com que as crianças sejam questionadoras ou reflitam sobre sua situação. Porém, se elas forem perguntadas, têm coisas interessantíssimas a dizer“. Isso ocorre pela limitação dos professores durante a classe, já que, em uma aula de artes, costuma-se valorizar mais a técnica do que a expressão. “Muitos educadores são medíocres – não no sentido de serem incompetentes, mas de subestimarem o potencial de produção criativa da turma”. Como resultado, quase não há produção artística real dentro das escolas, o que sequer é contestado pelos pais (afinal, para a maioria, “artes” não é uma disciplina relevante, mas, sim, entretenimento).

Agora, o projeto busca financiamento popular para continuar seu trabalho (para contribuir, clique aqui). Não que a solução seja levar o Pedal para todas as escolas; mas pode começar, sim, com mais educadores assistindo o conteúdo do canal e, a partir daí, pensando em como adaptar a intenção de diálogo em suas instituições de ensino. Para o idealizador, “o Pedal deve ser uma ferramenta propulsora de inspirações“.

Para Anderson, a arte nas escolas deve dar mais foque à expressão e criatividade do que à técnica (foto: divulgação)

Para Anderson, a arte nas escolas deve dar mais foque à expressão e criatividade do que à técnica (foto: divulgação)

Anderson Lima é co-diretor do longa “Quando sinto que já sei“, coordenador do projeto GEMA (Grupo Escolar de Mídia Alternativa) e cine-educador no Projeto Âncora. Idealizador do Portal PEDAL (Pedagogias Alternativas) e criador da web série “Hora do Recreio”.

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