Falar do professor de educação infantil é quase falar de um ator do teatro gestual.

Já reparou como um professor se utiliza do corpo e do movimento para contar uma história?

Na hora de fazer uma roda de leitura ele precisa projetar sua voz, criar uma linguagem corporal e interpretar vozes e personagens de um livro como se estivesse diante de uma plateia inteira no teatro. Só que o grau de dificuldade é maior, pois esses expectadores ainda não sabem fazer o silêncio e nem prestar bastante atenção.

O professor cria a dramaturgia através do corpo das personagens, através do planejamento e dos registros. Ele é o diretor, o cenográfo e também o ator que está sempre buscando ilustrar intenções e situações.

A arte de improvisar

Ah, e o improviso! Claro que esse é peça fundamental.

A partir de improvisações teatrais e gestuais, os professores vão, progressivamente, escrevendo a história das crianças e educando. E essa educação nos permite, enquanto crianças, escolher imagens e movimentos que estabelecem relações como o espaço, com o outro e com os objetos, e nos ajudam a manipular corpos e cores e é assim que surge o aprendizado.

Mas peraí, na faculdade de pedagogia a gente não estuda nenhuma dessas técnicas teatrais, não é? E é por isso que as vezes sentimos dificuldade na hora de fazer a roda de leitura e contar aquela história. A garganta dói, as crianças não param quietas e você fica se perguntando porque quando tem aniversário e a contadora de história aparece e encanta aquelas crianças todas?

Parece magia, não é? Foi por isso que fomos conversar com quem mais entende do assunto: uma atriz e professora!

A Fernanda Sanches é atriz, comunicadora e professora de teatro e comunicação e fez para a Eduqa.me uma intervenção na Bett 2017.

A Fernanda fazendo uma intervenção na Feira Bett Brasil Educar 2017. Ela estava interpretando uma cigana que lia o futuro pedagógico dos gestores e professores que transitavam pela feira.

Fernanda, conta pra gente! Como o professor pode utilizar essas técnicas para aprimorar seu trabalho em sala de aula?

4 técnicas que são fundamentais para o professor usar como ferramenta em sala de aula

O instrumento de trabalho do ator é composto por seu corpo, sua voz e suas emoções, e para manter esse complexo instrumento sempre expressivo é fundamental que ele pratique exercícios que aprimorem sua expressidade, sua potência vocal, sua consciência corporal e sua mente saudável.

O trabalho do professor não é diferente do ator pois ele também usa seu corpo e voz para ensinar e sua expressividade para se comunicar da melhor maneira possível com seus alunos; especialmente os professores de educação infantil, visto que a criança aprende muito mais quando o professor usa de saberes sensorial, afetivo e emocional nas suas aulas.

Esse aprimoramento da expressividade, inspirado em técnicas teatrais, jogos colaborativos, e vivências com a dança, eu ensino de forma totalmente prática em meus workshops de comunicação.

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Exercícios que funcionam com mais os diversificados públicos e são fundamentais para instrumentalizar o comunicador, o professor e toda pessoa que queira se comunicar de forma mais profunda e eficiente com seu público.

Dito isso, aqui vou explorar os quatro exercícios que costumo passar de “lição de casa” para meus alunos e tenho certeza que vai ajudar bastante os professores na hora de se comunicar com os seus alunos!

#1 Perca o automatismo

Uma das coisas mais importantes para uma boa comunicação é saber estar presente. Estar completamente presente no momento em que estamos diante de uma platéia faz toda diferença para atrair a atenção do público e colocar claramente nossas idéias.

O excesso de automatismo em nosso dia a dia, faz com que não prestemos atenção em nossas ações cotidianas e isso vai minando a capacidade de desenvolver o nosso estado de Presença. Uma das histórias mais famosas entre os atores é a de um grande cineasta, que quando queria escolher um ator para o seu filme pedia apenas um único teste: Que o ator bebesse um copo de água. O ator que conseguisse executar essa simples ação com a concentração e atenção total ao ponto de fazê-lo acreditar que ele estava realmente com sede era o escolhido pelo diretor.

Legal, né? Para desenvolver a habilidade de estar presente e perder o automatismo, eu sugiro que você faça o seguinte exercício:

Durante um dia inteiro, escolha três ações habituais do seu dia a dia e as faça de modo totalmente consciente e lenta, prestando atenção a cada gesto que você usa para tal ato, sem deixar a mente divagar para nenhum outro assunto. Para ajudar você pode narrá-los mentalmente. Quais ações? Beber água, escovar os dentes, abrir e fechar a porta, vestir-se.

O exercício parece simples mas sua mente tentará diversas vezes pensar em outro assunto mais “importante”: a conta para pagar, a reunião que virá, etc. Volte a sua atenção quantas vezes for necessário para cumprir essa tarefa.

Com o hábito de desautomatizar suas ações cotidianas, você terá maior domínio de sua presença ao se comunicar com o seus alunos.

#2 Escute o seu corpo

Uma das preocupações que costuma surgir quando estamos diante do público se resume nessa pergunta: “Onde coloco a minha mão?” Essa pergunta que se repete internamente dentro de nós demonstra o estado de ansiedade que ficamos quando estamos inseguros diante de uma platéia.

A insegurança faz a gente se sentir desajustado ao nosso próprio corpo e com isso começamos a usar inconscientemente nossos vícios e muletas corporais, como mexer as pernas, andar pra lá e pra cá, gesticular sem motivo, criar tensão no pescoço, etc… A falta de consciência corporal causa cansaço excessivo, porque acabamos sobrecarregando partes do nosso corpo que poderiam estar relaxadas, mesmo estando ativas.

Esse exercício de consciência corporal pode ser feito em qualquer ocasião em que você está esperando; na fila de banco, dentro do ônibus, dirigindo no trânsito…

Visualize cada parte de seu corpo, de forma tridimensional, do osso até a pele, começando pelos pés e indo até à cabeça. Simplesmente visualize-se internamente. Quando a gente coloca nossa atenção em cada parte de nosso corpo, essa atenção faz uma espécie de massagem imaginária e tira a tensão que possa estar em algumas partes do corpo ao passo que traz à atividade outras que ficam completamente esquecidas. Nesse “raio-x” imaginário você pode descobrir, por exemplo, que sempre se apóia na mesma perna quando está em pé, prejudicando um lado do quadril, que costuma deixar um ombro mais alto que outro por causa da bolsa, que sua má postura pode estar machucando sua lombar, etc…

Além de relaxar e gerar concentração, esse exercício faz com que você comece a detectar os sinais de desconforto que seu corpo te mostra todo dia, mas que na correria você acaba não os escutando.

#3 Conheça sua voz

A Expressão vocal é uma das maiores características do ser humano e provavelmente a mais usada, imagina para você que é professor?!

Nós falamos o tempo todo, em diversas ocasiões e com propósitos diferentes, mas poucos de nós conhecem realmente a própria voz. E muitos dos que a conhecem não gostam ou tem vergonha de se escutar.

Porque temos dificuldade de encarar uma das coisas que mais demonstra nossa identidade, que é a nossa voz? E como podemos melhorá-la, caso ela não nos agrade? O primeiro passo para toda a mudança é o reconhecimento.

Para conhecer sua voz, esse simples exercício pode ajudar:

Escolha um dia em que você esteja sozinho e com tempo, pegue o gravador do seu celular e grave sua voz por meia hora. De diversas formas diferentes: Fale com sua voz usual, fale em tons mais graves, em tons mais agudos, de forma corriqueira, formal, lendo um artigo em voz alta, brincando com vozes de personagens, de criança, etc… Após gravar por um bom tempo, respire fundo e comece a escutá-la. Você terá muitas reações no começo: vontade de parar, vontade de rir, vergonha, estranhamento, surpresa. Continue.

Ao final da gravação você estará mais acostumado a ela, e poderá avaliar que tipo de sensação você sentiu ao escutar sua voz e qual das “versões” de si mesmo você gostou, qual te incomodou e porquê. É um ótimo trabalho de reflexão que pode ser aprofundado na prática em aulas de teatro e comunicação.

#4 Zere a mente através da respiração consciente

A melhor coisa que existe em nosso corpo é a capacidade de respirar. A respiração consciente coloca tudo no lugar, de emoções a pensamentos.

A boa respiração oxigena o cérebro e ele funciona infinitamente melhor. Muitas pessoas confundem uma respiração consciente com uma respiração exagerada, intensa, peitoral, o que causa um efeito completamente inverso, gerando ainda mais ansiedade. A respiração consciente é lenta, sutil, diafragmática e todos nós nascemos aprendendo a fazê-la, basta olhar como os bebês respiram que você verá como fazer. Uma das vantagens da respiração consciente é usá-la para entrar em um estado de “zerar a mente”, que é uma técnica fantástica para quem lida com diversos públicos e se utiliza bastante de memorização durante um único dia, como acontece com o professor.

O ator, exatamente antes de entrar em cena, precisa criar esse estado de zerar a mente mesmo que ele tenha um monólogo inteiro para falar, pois se ele ficar querendo relembrar todo seu texto antes de entrar em cena, sua mente ficará confusa e ele fracassará. Esse estado de Estaca Zero trazido pela respiração lhe traz uma extrema confiança no seu potencial e gera uma maior escuta e troca entre ator e platéia, professor e alunos .

Para aprender a zerar a mente através da respiração, proponho esse exercício:

Imediatamente antes de entrar para dar aula, pare tudo que está fazendo por apenas dois minutos. Mantenha-se confortavelmente sentado em uma cadeira ou em pé, com a postura ereta e respire profundamente. Inspire pelo nariz lentamente. Segure por um segundo a respiração e expire lentamente pela boca.

Sinta bem os seus pés no chão, como uma âncora e o topo da cabeça voltado para o alto, como uma flecha. Esqueça as suas certezas, teorias, argumentos e anseios. Faça sua mente ficar absolutamente zerada durante esses minutos e concentre-se apenas em sua respiração. Faça esse exercício três vezes seguidas. Depois simplesmente continue seu trabalho e observe se houve alguma mudança no seu modo de agir e reagir durante a aula.

A experiência de voltar à estaca zero traz jovialidade ao ato de ensinar e maior prazer em executar trabalhos de rotina, tornando cada dia de trabalho um novo dia, como se fosse a primeira vez, assim como os atores fazem quando estão com uma peça em cartaz!

Essas foram algumas dicas que eu pratico cotidianamente em minha vida profissional. Elas exemplificam bem como as técnicas teatrais podem te ajudar a se expressar melhor. Adoraria receber o feedback de quem se interessou e agora que você já sabe essas técnicas de teatro, que tal fazer seu planejamento de roda de leitura na Eduqa.me? Tenho certeza que você vai adorar se inspirar nas técnicas de voz e de corpo e que muitas ideias boas surgirão daí.

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Até a próxima!

Fernanda Sanches é atriz, comunicadora e professora de teatro e comunicação. Para conhecer seus trabalhos e workshops visite: fernandasanches.com


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