deficit de atenção

Déficit de atenção: estratégias de apoio à aprendizagem

O déficit de atenção é um distúrbio neurobiológico que afeta o funcionamento do cérebro em áreas que comandam, por exemplo, a capacidade de planejamento de tarefas e a memória de trabalho, causando sintomas como desatenção, agitação (hiperatividade) e impulsividade.

O TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) é uma condição de saúde que afeta em maior prevalência crianças em idade escolar menores de 12 anos de idade e se manifesta em taxas mais altas entre meninos. Entretanto, hoje, falaremos apenas dos sintomas que se referem ao déficit de atenção.

Os problemas de aprendizagem têm sido combatidos de forma muito errônea em algumas situações, alimentando os seguintes comportamentos:

  • Medicalização exagerada como “resolução” dos problemas que envolvem o aprender;
  • Diagnósticos sem fundamento: crianças com rótulos de doenças e distúrbios que não possuem;
  • Bullying: criação de papéis indevidos  (“o lerdinho, o bobo, no mundo da lua”, entre outros).

Através de conhecimento e atitudes responsáveis é possível minimizar essas ocorrências que, por consequência, prejudicam a qualidade de vida das crianças e de suas famílias. Assim, é preciso entender como os sintomas de déficit de atenção se manifestam.

Crianças COM diagnóstico de déficit de atenção apresentam os comportamentos abaixo:

Caso a criança apresente mais de seis sintomas da lista - como deixar tarefas incompletas, esquecer seus pertences com muita frequência ou se distrair com facilidade - é indicado encaminhá-la a um psicopedagogo (foto: The Guardian)
Caso a criança apresente mais de seis sintomas da lista – como deixar tarefas incompletas, esquecer seus pertences com muita frequência ou se distrair com facilidade – é indicado encaminhá-la a um psicopedagogo (foto: The Guardian)
  • Freqüentemente deixam de prestar atenção a detalhes;
  • Cometem erros por descuido;
  • Dificuldades em manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas;
  • Parecem não escutar quando lhe dirigem a palavra;
  • Não seguem instruções;
  • Não fazem tarefas escolares ou tarefas domésticas;
  • Apresentam desorganização e tarefas incompletas;
  • Interrompem conversas e brincadeiras;
  • Não se envolvem em tarefas de esforço mental;
  • Distraem-se por estímulos externos à tarefa ( ruídos, conversas…);
  • Esquecem trabalhos e/ou objetos pessoais;
  • Perdem coisas (livros, lápis e etc).

Ou seja: a criança possui fatores neurobiológicos que interferem no funcionamento da aprendizagem, o que se caracteriza por déficit de atenção.

Contudo, é curioso pensar em onde traçar a linha que separa crianças diagnosticadas com o déficit de atenção e crianças sem o diagnóstico, mas que possuem sintomas muito semelhantes. Veja alguns fatores que podem produzir dificuldades na atenção sem que isso signifique um transtorno de aprendizado:

Fatores sociais e afetivos que interferem na aprendizagem:

Fatores externos, como conflitos familiares ou agendas sobrecarregadas, podem atrapalhar a atenção da criança - mesmo que ela não tenha déficit de atenção (foto: Randox)
Fatores externos, como conflitos familiares ou agendas sobrecarregadas, podem atrapalhar a atenção da criança – mesmo que ela não tenha déficit de atenção (foto: Randox)
  • Crianças com agendas de “executivos” vivem cansadas, desatentas, sonolentas e sem vontade de aprender;
  • Famílias em conflito, em separação ou passando por mudanças profundas, como o nascimento de um irmão, podem ocasionar na criança a dificuldade em manter a atenção, em escutar o que lhe dizem ou mesmo fazer com que cometa erros por descuido;
  • Morte na família pode “desligar” a criança do mundo real;
  • Crianças que não dormem direito, seja por dificuldades particulares, seja por falta de rotina, podem esquecer trabalhos escolares, objetos pessoais e não se envolver em atividades de esforço mental (já que estão cansadas);
  • Crianças que trabalham ou não se alimentam de forma adequada possivelmente terão a atenção e a concentração comprometidas;
  • Salas de aula e materiais escolares com muito estímulo visual podem atrapalhar a atenção. Exemplos: lápis de escrever com ponteira de bichinho ou personagem de preferência da criança, borracha com formato de um desenho preferido. Vale lembrar que este item está ligado aos exageros e em como cada criança poderá reagir a eles;
  • A criança quer expressar seus sentimentos, mas não sabe como, então, deixa de fazer os trabalhos escolares, esquece ou perde coisas propositalmente;
  • Interrompem conversas e brincadeiras, pois querem ser ouvidos ou chamar a atenção de alguém.

Nesse caso, a criança exibe sintomas de desatenção sem alteração biológica.

Quando encaminhar uma criança com suspeita déficit de atenção para um psicopedagogo?

É preciso atuar em parceria com a família: a criança demonstra esses sintomas em outros ambientes ou apenas na escola? (foto: Host Madison)
É preciso atuar em parceria com a família: a criança demonstra esses sintomas em outros ambientes ou apenas na escola? (foto: Host Madison)

Se a criança demonstrar seis ou mais dos sintomas listados, o professor deve formalizar um encaminhamento para um psicopedagogo, para que este atue em parceria com outros profissionais (incluindo o próprio professor) na busca pelo diagnóstico preciso. O psicopedagogo ainda pode realizar intervenções para minimizar os sintomas da desatenção e melhorar a aprendizagem da criança. Além disso, os sintomas devem ser observáveis em mais de um contexto (casa, escola, parques, etc).

As dificuldades de uma criança com este distúrbio já aparecem antes mesmo do ingresso à escola, mas ficam, de fato, evidentes quando as crianças experimentam o espaço escolar, devido às exigências cognitivas e atividades dirigidas que lhes são propostas.

Qualquer criança pode apresentar sintomas de desatenção ainda que não tenha o distúrbio. O próprio comportamento dos adultos cultiva certas atitudes infantis: como as pessoas estão cada vez mais apressadas, sem tempo, ansiosas, isso se reflete de alguma forma nas crianças. Por isso, lembre-se que é importante:

Conhecer cada aluno – Fazer parcerias com as famílias – Ter conhecimento sobre problemas que envolvem a aprendizagem.

O diagnóstico de déficit de atenção é feito por um profissional da área médica, com conhecimentos pediátricos de avaliação psicossocial e saúde mental, como, por exemplo, um médico neurologista ou psiquiatra. O professor também é uma figura primordial desde o momento inicial de investigação, até o processo de confirmação do diagnóstico de déficit de atenção, já que um professor com um olhar atento apoia o diagnóstico precoce, contribuindo com o desenvolvimento da criança, extinguindo ou reduzindo incidências de bullying e diagnóstico sem fundamento.

Como facilitar a aprendizagem de crianças com déficit de atenção?

Evite apelidos pejorativos e reações irritadas ("anda logo", "fica quieto", etc.). Ao invés disso, motive (foto: Preschool Matters)
Evite apelidos pejorativos e reações irritadas (“anda logo”, “fica quieto”, etc.). Ao invés disso, motive (foto: Preschool Matters)

Se o seu aluno apresenta déficit de atenção ou mesmo características do distúrbio devido a questões socioafetivas, anote algumas estratégias que lhe poderão ser muito úteis:

1. Crianças com déficit de atenção necessitam da repetição de exercícios, de instruções e também de um tempo maior para reter e processar uma nova informação. Assim, é possível melhorar a capacidade de trabalho da memória.

2. Outra sugestão para aumentar o tempo de atenção e concentração é estruturar uma gama de atividades diferentes com um mesmo objetivo para serem exploradas durante o período escolar. Exemplo: iniciar uma atividade de escrita sobre um determinado conteúdo, depois, utilizar o material concreto sobre o mesmo assunto, ler um livro, introduzir um jogo e atividades no computador ou tablet. Com esta estratégia, a criança em questão é chamada para reiniciar de forma constante o seu processo de atenção e concentração, podendo colaborar para o exercício, estruturação e aprimoramento de tais funções.

3. Dê uma ocupação ou função à criança: ajudar a distribuir uma tarefa para a turma, recolher materiais, buscar um brinquedo que será usado em aula, entre outros.

4. Modifique seus métodos e materiais de trabalho, introduzindo novidades e objetos concretos para melhorar a atenção.

5. Reorganize o ambiente: modifique as carteiras de lugar, faça novos agrupamentos entres os alunos e até sugira grupos de estudos.

6. Tempo para as tarefas: como já foi dito, pode ser dado um tempo maior do que aos demais colegas para a execução das tarefas, ou ainda um tempo menor, mas com variedade de tarefas. É preciso conhecer como cada criança reage melhor e definir o tempo que se adequa às necessidades dela.

7. O mesmo vale para avaliações: elas podem ser feitas de forma oral ou escrita, considerando um tempo maior ou menor para a sua execução, dependendo de cada caso. A quantidade de atividades (muitas atividades curtas ou poucas atividades longas) também deve ser estabelecida de acordo com cada caso específico.

8. Crie rotinas para avisar sobre o limite de tempo. Por exemplo, bata um sino ou apite, quando faltar 5 minutos para o término da atividade. Sinalize sempre o que está acontecendo.

9. Dê pequenos intervalos de descanso a cada 40 minutos de trabalho em que as crianças possam ir ao banheiro, tomar água, movimentar-se.

Cartões com palavras, frases, perguntas e imagens ajudam a criança a organizar os pensamentos (foto: Hollywood Learning Center)
Cartões com palavras, frases, perguntas e imagens ajudam a criança a organizar os pensamentos (foto: Hollywood Learning Center)

10. Use estímulos visuais associados aos auditivos (músicas, vídeos, gravar a voz da criança). Computadores e retroprojetores são bons recursos, use-os quando estiverem disponíveis. Desenhe bastante, use figuras e gráficos.

11. Use calendários em classe e estimule a utilização das agendas pessoais. Avise, quando possível, sobre mudanças na rotina.

12. Use um pouco de arte dramática. Utilize gestos, demonstre o que explicar, ande pela sala, cubra um objeto para, depois, revelá-lo, faça surpresas.

13. Seja sempre que possível motivador. Não utilize frases como: “o tempo está acabando; vai logo!; ande rápido!; ainda não terminou?”.

14. Ao introduzir uma pergunta, use cartões com respostas prontas para que o aluno possa organizar o pensamento. Isso vale também para organização de textos já conhecidos.

15. Prepare atividades com palavras-chave ou banco de palavras para completar um conceito, deixando lacunas no texto para serem preenchidas.

16. Jogos como o Lince são excelentes para aprimorar a atenção. Construa outros tipos de Lince com os temas que lhe forem úteis.

Conheça aplicativos que podem motivar crianças com déficit de atenção

Alguns apps servem como ferramenta para motivarmos e estimularmos as crianças com déficit de atenção em seus estudos. Veja alguns deles:

  • MatrixMatch 2: O objetivo é ordenar e relacionar, numa grande matriz, as formas e linhas que, unidas, dão origem a novas figuras (gratuito);
  • Match it up 3: trabalha a relação entre determinados pares de objetos, animais, ferramentas, meios de transporte e muito mais (gratuito);
  • Series 1: ensina a criança a organizar os objetos por forma, cor, tamanho e quantidade. O jogo desenvolve conceitos matemáticos primários como tamanho e quantidade, habilidades de percepção visual (gratuito);
  • My Mosaic: um jogo que ajuda no desenvolvimento de habilidades nas áreas da percepção visual e coordenação de olho e mão (gratuito).
  • CLIQUE AQUI PARA TESTAR AGORA A PLATAFORMA EDUQA.ME 

Crie relatórios de desenvolvimento na Eduqa.me - horizontal

Texto: Luciana Fernandes Duque para a Eduqa.me. Luciana doutoranda em Educação Especial – Faculdade de Motricidade Humana pela Universidade de Lisboa – Portugal, Mestre em Educação – Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Psicopedagoga Clínica e Pedagoga com vasta experiência Educação Inclusiva. É autora de dois livros, um sobre inclusão escolar e outro sobre relação professor aluno. É responsável pela fanpage Luciana F Duque Psicopedagogia e Inclusão.

 

Comentários no Facebook