Quem convive com crianças pequenas, como professores de Educação Infantil, sabe que, nessa fase, elas parecem aprender muito rápido. Há quem faça analogias com esponjas, dizendo que as crianças na primeira infância absorvem tudo à sua volta – e, através de pesquisas, hoje sabemos que isso não está tão longe da verdade!

O cérebro infantil não nasce pronto, idêntico ao do adulto. Até os 3 anos de idade, ele cresce e se desenvolve a uma velocidade surpreendente: é quando a criança aprende a enxergar, detectar sons, andar, falar, identificar quantidades e construir uma série de outras habilidades. Esse processo, não tão acelerado, continua até os 6 anos, época crucial para o desenvolvimento da personalidade, do caráter e das capacidades fundamentais (a “base” que permitirá que a criança, quando crescer adquira habilidades mais específicas e refinadas).

Ou seja, toda criança ou adulto é capaz de aprender algo novo e o processo sempre vai exigir repetição, tentativa e erro. A diferença é que, na primeira infância, não é necessário repetir tantas vezes – o cérebro compreende mais rápido como deve reagir a cada estímulo e logo cria uma reação padrão.

Acontece que as crianças vão aprender tanto com estímulos positivos quanto negativos. Passar por situações de carinho e acolhimento ou por momentos de estresse vão ambos influenciar a vida adulta. Ir à uma creche ou pré-escola de qualidade vai beneficiá-la, enquanto uma de baixa qualidade pode trazer prejuízos ao desenvolvimento futuro.

O vídeo abaixo, produzido pelo Center on the Developing Child (CDC) da Universidade de Harvard, tem apenas 3 minutos e explica como as experiências na infância influenciam a vida adulta – e até mesmo toda a sociedade:

Educação

Ter experiências de qualidade entre os 0 e 6 anos está relacionado ao sucesso durante toda a vida escolar. Faz sentido: os aprendizados são acumulativos, certo? Basta pensar que nenhum aluno vai conseguir resolver equações de segundo grau se ainda não aprendeu a multiplicar e dividir.

O caminho inverso também vale: os déficits que forem surgindo pelo caminho tendem a crescer e se tornar mais difíceis de superar nos anos seguintes (o que vemos com tanta frequência na educação brasileira, em que jovens entram na universidade sem conseguir interpretar textos simples ou realizar operações básicas de matemática). Corrigir essas deficiências é muito mais trabalhoso – e mais caro – do que investir em um ensino consistente desde a infância.

O aprendizado é acumulativo: as crianças precisam de uma base sólida na primeira infância para continuar aprendendo durante a vida escolar (foto: Baker.Edu)

O aprendizado é acumulativo: as crianças precisam de uma base sólida na primeira infância para continuar aprendendo durante a vida escolar (foto: Baker.Edu)

Isso vale para outras áreas, como linguagem ou mesmo competências emocionais. Funções cognitivas como a atenção, a memória, o pensamento crítico e o planejamento já estão se desenvolvendo na primeira infância, ainda que continuem se refinando na adolescência. Essas habilidades surgem quando a criança precisa controlar seus impulsos, prestar atenção ou cumprir regras. Já foi comprovado que crianças que, desde cedo, são orientadas a persistir, lidar com o fracasso e resolver problemas têm mais chances de se formar no Ensino Médio e na faculdade. O índice de evasão escolar também diminui.

Por consequência, as crianças que passam por essa educação de qualidade vão, mais provavelmente, conseguir um emprego estável e com salário mais alto do que aquelas que não tiveram a mesma oportunidade. Isso gera um ciclo de desenvolvimento: se essas crianças, agora adultas, tiverem filhos, eles também terão acesso a um bom ensino, a um bom emprego, a uma remuneração alta… E assim por diante.

Mas atenção: não basta apenas que a criança esteja matriculada em uma creche ou pré-escola. Os impactos positivos estão ligados à qualidade da educação oferecida!

Comportamento e habilidades socioemocionais

As crianças vão reagir conforme os adultos em volta: se os pais e educadores se descontrolam, elas aprendem que essa é a forma de se lidar com problemas (foto: Love, play and learn)

As crianças vão reagir conforme os adultos em volta: se os pais e educadores se descontrolam, elas aprendem que essa é a forma de se lidar com problemas (foto: Love, play and learn)

As principais características da personalidade da criança vão se formar entre os 0 e os 3 anos de idade – e as experiências mais marcantes partem dos relacionamentos que a envolvem, seja com pais, parentes, cuidadores ou professores.

Esse é o momento para apresentar valores como respeito, ética, cidadania e paz. Afinal, a criança tende a absorver essas experiências sem questionar: ao presenciar cenas de preconceito, por exemplo, ela não consegue refletir sobre a ação ser certa ou errada, simplesmente passará a repetir o que aprendeu. É muito mais difícil desconstruir preconceitos em um adolescente ou adulto do que educar a criança, desde a primeira infância, para tratar todos igualmente.

Da mesma forma, é através da interação com os adultos que ela vai aprender a lidar com conflitos e imprevistos. Quando os pais ou professores reagem com exagero ou se desesperam diante de qualquer arranhão, a criança passa também a responder com estresse a qualquer acontecimento. Ambientes em que os adultos gritam demais ou agridem um ao outro mostram que essa é a maneira correta de se conseguir o que quer.

Criar espaços de segurança, tranquilidade e afeto; tratar o fracasso como parte natural do aprendizado e apoiar as tentativas de independência da criança são determinantes para que ela aprenda a lidar de forma saudável com desafios, situações estressantes ou frustrantes. Assim, ela terá facilidade em se adaptar a diferentes ambientes.

Saúde

Crianças que crescem em ambientes seguros e saudáveis têm menos chances de desenvolver doenças crônicas como obesidade, diabetes ou depressão (foto: YMCA Calgary)

Crianças que crescem em ambientes seguros e saudáveis têm menos chances de desenvolver doenças crônicas como obesidade, diabetes ou depressão (foto: YMCA Calgary)

Os benefícios não param por aí. Crianças que recebem cuidados de qualidade desde o nascimento, seja com a família, seja na escola, ainda têm menos chances de desenvolver problemas de saúde. Esses cuidados envolvem não somente o ensino, mas a nutrição, o acompanhamento médico adequado, o afeto e a sensação de segurança.

Tendo essas oportunidades quando pequenas, elas, quando adultas, têm menor propensão a apresentar obesidade, diabetes, depressão e problemas cardíacos. As chances de se envolver com tabagismo, alcoolismo e uso de drogas pesadas também diminuem. Essas crianças tendem a viver mais e com mais qualidade de vida!

Economia, política e segurança

O ciclo “vida saudável – boas oportunidades – aumento de renda” continua trazendo benefícios. Uma primeira infância de qualidade faz com que os índices de violência e criminalidade durante a adolescência e a vida adulta despenquem. Também diminuem os casos de suicídios e homicídios, especificamente.

Além disso, crianças que têm mais oportunidades irão precisar de menos ajuda do governo para sobreviverem quando adultas (através de programas de transferência de renda como o Bolsa Família, por exemplo).

O investimento na primeira infância gera um ciclo de desenvolvimento: se essas crianças, agora adultas, tiverem filhos, eles também terão acesso a um bom ensino, a um bom emprego, a uma remuneração alta e a uma vida mais saudável (foto: Picrolls)

O investimento na primeira infância gera um ciclo de desenvolvimento: se essas crianças, agora adultas, tiverem filhos, eles também terão acesso a um bom ensino, a um bom emprego, a uma remuneração alta e a uma vida mais saudável (foto: Picrolls)

Tudo isso comprova que investir em programas de primeira infância de qualidade, em capacitação de professores, em creches e pré-escolas com a estrutura adequada não é, na verdade, um gasto extra para o governo – é uma economia.

Pesquisas americanas já provaram que, a cada dólar investido em crianças de 0 a 6 anos, o país economiza 7 dólares em assistência social, atendimento a doenças mentais, manutenção de presídios, repetência e evasão escolar. Esse mesmo um dólar investido na primeira infância economiza 15 dólares por pessoa no tratamento de doenças crônicas (como a depressão ou o vício).

Os estímulos dos pais, familiares e educadores são essenciais ao bom desenvolvimento. Contudo, não são suficientes sem um olhar cuidadoso dos nossos governantes.

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