mini adultos

A criança e a agenda lotada

Crianças ou mini adultos? uma reflexão sobre a rotina e o excesso de estímulos oferecidos aos pequenos.

mini adultos

A infância, assim como cada pessoa, tem o seu próprio ritmo.

Por muito tempo a Escola padronizou alunos por currículo e idade, hoje fala-se mais de uma Escola personalizada e que respeita o tempo de seus alunos, mas ainda sim há muita resistência sobre o como personalizar o currículo na Educação Infantil.

Os pais muito preocupados em dar o melhor para seus filhos e muito ocupados com seus trabalhos tem exagerado na programação das agendas dos pequenos.

A maioria das crianças está com a agenda superlotada.

É aula de yoga, natação, dança, inglês, artes, música, etc.  Naturalmente essa oferta da Escola acontece porque há uma demanda imensa de pais que estão cumprindo sua carga horária no trabalho e desejam, cada vez mais, oferecer o melhor para seus filhos.

Um dia alguém falou:

– Para as crianças crescerem saudáveis, inteligentes e se desenvolverem adequadamente é preciso estimular!

Pais e Escola aderiram ao fato de ser necessário estimular seus alunos para prepará-los para o mercado de trabalho, que está cada vez mais competitivo.

Entretanto, será que os estímulos não estão um bocado exagerados?

Esta é a reflexão que se quer provocar, ou seja, fazer com que se pense na rotina das crianças e entender que se não há um espaço para o “brincar” ou para o “fazer nada”, me parece que algo está errado.

Na idade média, as crianças não eram vistas da mesma forma que são hoje. Elas eram literalmente “mini adultos”. Isto não é uma metáfora; infelizmente se pesquisarem fotografias de crianças nesta época poderão observar meninos e meninas com golas franzidas, calções bufantes, saias compridas e pesadas, sapato de salto e chapéus, roupas apertadas, ou seja, nada confortável ou condizente com o vestuário infantil que conhecemos. Aliás, na idade média, era considerado como criança um sujeito com até 6 ou 7 anos de idade, depois disso, “adultos” ou melhor mini adultos.

mini adultos, trajes de criança na idade média
À direita o Duque de Berry, futuro Luís XVI, à esquerda o Conde da Provença, futuro Luís XVIII, em trajes suntuosos da corte.

Muita coisa mudou do século XVI até os dias de hoje, mas de forma oculta e na maioria das vezes com as melhores das intenções, voltamos a transformar as nossas crianças em adultos em miniatura. Isso acontece, não por desprezar suas necessidades, mas por permitir que tenham uma agenda quase tão cheia quanto a de um executivo.

O judo, a natação, o futebol, o balé, as salas de explicação/reforço escolar são atividades necessárias, afinal, as crianças precisam ser “estimuladas” e tem sempre muita energia.

Calma! Ainda não mencionei as crianças com deficiências, que além de todas as atividades já citadas anteriormente, podem necessitar de fonoaudiologia/terapeuta da fala, psicopedagogos, psicólogos, fisioterapeutas, e etc. Ai, ai, ai, já se acabaram as 24h do dia, não é?

Onde fica o brincar? E as famílias nestas relações lúdicas?

Sem contar que a escola não para! Algumas são uma máquina de produzir trabalhos para casa.

Crianças de 2 e 3 anos já utilizam livros didáticos, ou seja, cada vez mais cedo, o brincar é interrompido.

Que sociedade queremos? Que ser humano estamos formando? Estimular o que e para que?

É importante e necessário que as crianças façam atividades extracurriculares e que pratiquem em casa o que aprenderam na escola através dos trabalhos. Entretanto, o que se questiona é a quantidade de atividades. É vital que as crianças brinquem e também tenham momentos livres para não fazer nada!

criança sendo criança

Impedindo o brincar, de nada adiantarão os estímulos, de nada adiantarão os trabalhos para casa. Estaremos a “produzir” a desatenção, a falta de capacidade imaginativa e até a infelicidade; fatores estes, que são extremamente destrutivos para o desenvolvimento saudável da criança.

E então, quantos estímulos vamos oferecer aos nossos pequenos e quais?

Independente do estímulo é preciso se atentar também como cada criança responde a estes estímulos. Não esqueça de registrar as evidências e falas relevantes em sala.

Perceba em que momento a criança se sente incapaz e a incentive.

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Texto: Luciana Fernandes Duque para a Eduqa.me. Luciana doutoranda em Educação Especial – Faculdade de Motricidade Humana pela Universidade de Lisboa – Portugal, Mestre em Educação – Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Psicopedagoga Clínica e Pedagoga com vasta experiência Educação Inclusiva. É autora de dois livros, um sobre inclusão escolar e outro sobre relação professor aluno. É responsável pela fanpage Luciana F Duque Psicopedagogia e Inclusão.

 

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