A FORMAÇÃO DO PROFESSOR NO COTIDIANO DA ESCOLA

Como olhar para as produções atuais sobre formação de professores e não nos interrogarmos sobre como fazemos uso de nossa capacidade reflexiva? Diante de um questionamento dessa amplitude percebemos o quão importante é perceber, em nossa trajetória como professoras, os instantes que compõem a nossa prática docente no cotidiano escolar, em busca de respostas.

Este movimento se faz necessário por compreendermos que as relações estabelecidas no cotidiano podem ser geradoras de reflexão e aprimoramento pessoal e profissional ao trazer as micro-resistências, micro-liberdades, micro-escolhas que fazem do professor um sujeito que reflete sobre a própria prática. No cotidiano percebemos de forma mais genuína a articulação entre o prescrito e o realizado, entre o pensar e o fazer. É consequentemente, o palco dos conflitos e o espaço da tomada de consciência das teorias direcionadoras da prática. A experiência vivida no cotidiano da escola é potencialmente formadora, na medida em que dá oportunidade para que se reflita sobre as ações e relações. (CERTEAU, 1994; SCHWARTZ, 2000)

Ao dar um ZOOM nas escolhas que fazemos constantemente no cotidiano escolar percebemos que a reflexão e a formação ocorrem nos momentos mais diversos e através dos meios mais variados. Diferente do que se possa pensar a princípio, o potencial formador do cotidiano não reside apenas nas pesquisas e saberes sistemáticos que são realizados pelos docentes e socializados entre os alunos, mas, principalmente, na relação que os sujeitos estabelecem entre si e com o meio. Desta forma, vimos que é necessário vir na contramão da trajetória formal e ter um olhar atento aos movimentos que fazemos a todo instante, considerando que todo o emaranhado de informações e recortes de conteúdos, relações e sentimentos fazem parte do nosso processo de formação. Enfim, se faz necessário ir além do que está posto nas práticas culturais e naquilo que ainda é emergente. Mas como enxergar a formação que ocorre além do que vemos concretamente?

Ao longo do nosso caminhar como professoras, percebemos que as táticas e estratégias (CERTEAU, 1994) de trabalho se modificam em função da realidade dada, dos aspectos do grupo, de nossa própria história, das práticas instauradas, das políticas públicas. Independente disso, as diferentes maneiras de registro e expressão (imagens, poemas, narrativas) estão sempre presentes. Estes recursos, quando utilizados sistematicamente, são incorporados à prática docente onde desempenham papel importante de instrumento que organiza o pensamento permitindo a reflexão sobre o cotidiano.

Ao considerar as dimensões do cotidiano como indispensáveis para a constituição do educador, afirmamos a crença no profissional que está no “chão da escola” e aberto às novas possibilidades de compreensão de seu próprio trabalho e de sua ação. Acreditamos que os professores têm voz ativa e são agentes que constroem seus próprios saberes na relação – com os pares, com a realidade, com os pressupostos teóricos…

Pensamos, então, em professores como profissionais que aprendem com a própria prática. Dentro da perspectiva apresentada por Schön (2000), isto significa considerar, intencionalmente, as experiências vividas no cotidiano como geradoras do pensamento reflexivo do indivíduo. Assim, não se descarta a necessidade da formação técnica e do conhecimento das teorias que norteiam as ações, mas, afirma-se, a indissociabilidade destas com o exercício do pensamento reflexivo para a formação integral do indivíduo. Ainda neste sentido, podemos afirmar que o exercício reflexivo precisa ser ensinado, dentro de sua própria lógica e de seus próprios parâmetros. O aprendizado do pensamento reflexivo acontece na ação, ao mesmo tempo em que o exercício da docência se realiza. O educador faz pensando e pensa fazendo.

O ambiente da escola é formador

É possível destacarmos diversas características do ambiente escolar que potencializam e dão condições para que a formação reflexiva ocorra: espaço que privilegia a diversidade da convivência em grupo e, ao mesmo tempo, desperta as características singulares do sujeito já que é um local de vivência comum, palco de conflitos e relações, favorecendo, assim, a convivência democrática entre sujeitos de diferentes realidades, onde os indivíduos necessitam agir de forma a ajustar-se criativamente e criticamente às situações que são colocadas.

Dentre os aspectos citados e os muitos outros que certamente se evidenciariam, há um ponto que converge e que se mostra de maior importância para compreendermos o caráter formador da prática cotidiana escolar na constituição do educador: escola é lugar de convivência, de estabelecimento de relações, de sistematização e (com)partilhamento de conhecimento. É espaço de se conhecer através do outro e de levar o outro a se conhecer através da multiplicidade de olhares. De acordo com o conceito de “excedente de visão”, de Bakhtin (2000), somos capazes de perceber o outro em perspectivas que nunca nos enxergaremos. Por isso, a visão que o outro tem de nós é fundamental para o entendimento de quem somos… pois soma às nossas experiências uma forma de compreensão que nunca teremos sozinhos.

Schön (2000) aponta, estabelecendo um paralelo com a imagem de uma sala de espelhos, que através da reflexão somos capazes de nos enxergar em outras perspectivas, possibilitando “sair de nós mesmos”, de nossa condição natural, para nos vermos de outra maneira. Não será nunca a visão do outro, mas é uma visão alterada (ou ressignificada?) de nós mesmos.

Assim, no contexto de formação de professores, é possível perceber a escola como local de potencialidade de formação docente já que é nela que ocorrem as práticas. Práticas que ao serem analisadas trazem os conhecimentos (acadêmicos ou não) que cada professor possui, ampliando seu grau de visão e constituindo como foco primordial para a reflexividade. Voltando para o nosso percurso de professoras percebemos o quanto esses conhecimentos são necessários à nossa interação com o grupo ao qual estamos inseridos, seja ele de professores, de alunos ou da comunidade escolar, pois é através deles que construímos novos conhecimentos.

A partir do momento em que trazemos as potencialidades individuais (expressivas, tecnológicas…) percebemos que o diálogo entre os campos do conhecimento se evidencia com maior amplitude no cotidiano escolar. Assim, a experiência e a produção da sala de aula se tornam significativas para o sujeito que está envolvido no processo de ensino aprendizagem e extrapola este lugar, pois, em diferentes momentos do processo, pode-se compartilhar o que vem sendo produzido. Por exemplo: durante a investigação sobre o “descobrimento do Brasil”, as crianças podem compartilhar o que estão aprendendo e apreendendo através de um blog da classe. Ou ainda, apresentar registros com fotos, ilustrações, textos no corredor da sala de aula.

Elementos formativos do cotidiano escolar

A aprendizagem só se mostra significativa quando estamos inteiros no processo. O sentido das coisas só é percebido na sua concretude, quando as conhecemos com a nossa totalidade, conscientemente. É quando escolhemos e desejamos agregar ao conhecimento lógico a percepção sensória, quando nos permitimos entender a realidade através da subjetividade. É a busca pela harmonia e pelo equilíbrio entre a razão e a emoção.

Assim, podemos afirmar que a lógica só existe em relação ao sentimento, e vice versa. Isso quer dizer que qualquer modelo educativo que se pense, por mais audacioso ou imperativo que tente ser, jamais conseguirá dizer racionalmente como sentir ou criar, nem tampouco poderá tirar do ser humano estas suas capacidades. Sentimento e criatividade são inerentes à vida, são “estesia” (palavra que deriva de ayesthesis, do grego, que significa sentir o mundo. Enquanto estamos vivos, sentimos).

A aprendizagem significativa ocorre, então, quando consideramos intencionalmente o sensível e o inteligível em todo o processo educativo. A criatividade e a imaginação estão sempre presentes, são indissociáveis da atividade humana, mas se não escolhemos evidenciar, tornar consciente esta dimensão do conhecimento, ela deixa de ser “saboreada” pelo sujeito. Nesse sentido, faz-se necessário um resgate das práticas expressivas em educação, das vivências que tornam possível ao indivíduo perceber-se e colocar-se através de diferentes recursos frente à realidade, pois estas foram, em muitos casos, esquecidas ou substituídas por modos de fazer.

As maneiras de fazer (Certeau, 1994) da prática docente entrelaçam a criatividade e a imaginação e incorporam diversas maneiras de entender e apreender o mundo. O uso de novos instrumentos educativos e formas alternativas de linguagem tem garantido aos sujeitos outro olhar para o conhecimento. Torna-se  inevitável lançarmos mãos das novas técnicas da produção sócio-cultural presente na sociedade, já que nos reapropriamos do que está posto a todo instante.

O uso das novas mídias, por exemplo, é um dos aspectos constituintes das formalidades da prática cotidiana, pois o uso da tecnologia como registro possibilita oferecer ao professor e aos seus alunos um possível lugar a ser revisitado no presente e no futuro. Ao fazer uso das tecnologias disponíveis o professor está exercitando uma autonomia que só pode ser percebida quando se debruça sobre o seu trabalho e faz a análise de recortes do seu cotidiano: seja no planejamento diário, flexível e móvel diante de tantos acontecimentos que povoam a sala de aula, ou até mesmo na sistematização de um trabalho desenvolvido por um período de tempo que deve ser socializado com a comunidade na qual está inserido através de um blog ou de uma apresentação.

Neste mesmo sentido, as práticas expressivas que valorizam os processos criativos dos alunos e professores, como vivências artísticas e momentos de fruição poética também tem ganhado espaço nas discussões mais recentes e nas salas de aula. Este movimento, fundamental para a formação reflexiva dos educadores e educandos, possibilita conciliar os saberes eruditos com a cultura popular, as inovações com a tradição, o pessoal com o coletivo, o particular com o comum. Enfim, todas as aprendizagens significativas que permeiam o cotidiano do sujeito nos trazem indícios da importância do professor conectar-se a tudo que está posto e ao que está por vir, pois nas brechas nas quais atua, possibilita uma formação pessoal e profissional entrelaçada de maneira a formar-se sujeito reflexivo.

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Referências

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

BANYAI, I. Zoom. São Paulo: BRINQUE BOOK, 2004.

CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Editora Vozes, 1994.

SCHÖN, D. Educando o profissional reflexivo. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

SCHWARTZ, Y. Trabalho e uso de si. In Revista Proposições. UNICAMP, v.1 n.5 (32), jan. 2000.

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