Fevereiro é um mês de recomeços dentro da escola. Para o professor, além do planejamento das aulas, esse também é o momento ideal para revisar e refletir sobre as práticas do ano anterior – e o que se pretende mudar no próximo período letivo. 

A psicopedagoga Luciana Fernandes Duque, que colabora mensalmente com o Na Escola, inaugura 2016 com um texto sobre a diferença entre o “ver” e o “olhar”. Qual dos dois você exercita ao observar sua classe? Sua resposta faz toda a diferença: Afinal, um olhar atento e empático pode contribuir profundamente para o desenvolvimento das crianças e com sua realização profissional.

Em meio à rotina corrida, o professor consegue olhar para cada aluno individualmente? (foto: Framepool)

Em meio à rotina corrida, o professor consegue olhar para cada aluno individualmente? (foto: Framepool)

Meu primeiro texto do ano propõe o pensar sobre o “ver” e o “olhar”. A princípio, as pessoas acreditam que essas palavras sejam sinônimas, mas, ao nos aproximarmos do que cada uma delas nos diz, as diferenças são notáveis.

É interessante pensar que o “ver” e o “olhar” se completam, já que, para olhar, antes, é preciso ver. Contudo, há pessoas que, por exemplo, “veem com as mãos” ou “olham com o coração” – o que é justamente sobre o que se trata essa reflexão: Encontrar uma forma diferente de olhar.

Ver está ligado às habilidades fisiológicas da visão.

Olhar está ligado às habilidades sensitivas, afetivas e sociais.

O ver é rápido, ágil, desatento. Já o olhar é devagar, profundo, reflexivo e até empático.

Quantas vezes em nosso cotidiano olhamos para os nossos alunos, suas famílias e, principalmente, para nós mesmos? Se estamos sempre com pressa, atrasados, atarefados, acabamos tendo pouco tempo para essa pausa. Resumindo: Vemos muita coisa, mas olhamos para poucas.

É preciso despertar para o que realmente importa. Claro, há uma série de âmbitos importantes na sua vida, e nem todos dizem respeito à sala de aula: Família, saúde, amizades, valores. Nesse texto, porém, o foco é o próprio professor.

Estudar e conhecer metodologias não faz um professor. Empatia é fundamental (foto: The Pixel Project)

Estudar e conhecer metodologias não faz um professor. Empatia é fundamental (foto: The Pixel Project)

Não basta cumprir uma lista de pré-requisitos: Gostar de crianças, ter paciência, ler e estudar muito. Ser professor ultrapassa as barreiras do ter ou do gostar. São necessárias diferentes construções internas, é preciso ser. Muitas pessoas, quando escolhem a profissão de docente, não levam em conta o que é ser professor, baseando-se apenas em preceitos superficiais, mas deixando de analisar a complexidade do papel de educar.

Ser professor está, além de em realizar as tarefas que já conhecemos, em ser um especialista em relações humanas. É mais do que o conteúdo programático ou método de ensino, é saber olhar para os alunos e para as relações estabelecidas através do processo de ensino-aprendizagem. Como digo no meu livro A aula da xícara: uma experiência sobre a relação professor-aluno:

“A rotina faz parte do dia-a-dia em sala de aula, mas a monotonia não! […] transforme momentos simples em grandiosos,  pequenas atividades em grandes eventos simbólicos, tendo a atenção e o olhar para o outro como um princípio”.

Portanto, o professor deve se reconhecer como protagonista fundamental da educação e praticar o que tem de melhor: o olhar para o aluno e para si mesmo. Para isso, é preciso um despertar: “Não sei como preparar o educador. Talvez porque isso não seja nem necessário, nem possível… É necessário acordá-lo […], pois eles não se extinguiram […] Basta que os chamemos de seu sono, por um ato de amor e coragem… e talvez acordados, repetirão o milagre da instauração de novos mundos”. Essa é a mensagem da contracapa do livro Conversas com quem gosta de ensinar, de Rubem Alves.

Não são críticas ou verdades absolutas, mais, sim, chamados. Chamados para o princípio. Chamados para que você relembre: Por que começou essa jornada? Ter essa missão clara auxilia o professor em sua rotina. Somente assim ele consegue desempenhar o papel que lhe cabe, importante tanto na vida dos alunos quanto para a sociedade. Quando o professor é capaz de perceber, conviver, incluir, seu valor é incalculável.

O olhar é também prender a atenção, pensar sobre o outro e valorizá-lo. Pratique-o. Afinal, fazer a diferença positivamente na vida de alguém, através da profissão que se escolheu, torna o trabalho ainda mais prazeroso. Boa reflexão!

Perfis de turma e individual na Eduqa.me - horizontal

Texto: Luciana Fernandes Duque para a Eduqa.me. Luciana doutoranda em Educação Especial – Faculdade de Motricidade Humana pela Universidade de Lisboa – Portugal, Mestre em Educação – Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Psicopedagoga Clínica e Pedagoga com vasta experiência Educação Inclusiva. É autora de dois livros, um sobre inclusão escolar e outro sobre relação professor aluno. É responsável pela fanpage Luciana F Duque Psicopedagogia e Inclusão.


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